A Huawei, gigante tecnológica chinesa, tornou-se o símbolo da resistência da China às sanções americanas no setor de semicondutores. Através de sua subsidiária HiSilicon, a empresa desenvolveu a linha de processadores Kirin, que equipam smartphones, servidores e equipamentos de telecomunicações. O lançamento do Mate 60 Pro com o chip Kirin 9000S em 2023 chocou o mundo ao demonstrar que a China conseguia produzir chips avançados mesmo sob embargo.

A história do HiSilicon e os chips Kirin

A HiSilicon foi fundada em 2004 como a divisão de design de chips da Huawei. Inicialmente, seus processadores eram considerados inferiores aos da Qualcomm e MediaTek, mas a empresa investiu sistematicamente em P&D, chegando a dedicar mais de 20% de sua receita anual a pesquisa e desenvolvimento. O Kirin 980, lançado em 2018, foi o primeiro chip móvel do mundo fabricado em processo de 7 nm.

Com as sanções americanas de 2020, a Huawei perdeu acesso à fabricação na TSMC, o que paralisou temporariamente a produção dos chips Kirin. A empresa acumulou estoques e buscou alternativas, até que em agosto de 2023 o Kirin 9000S, fabricado pela SMIC em processo de 7 nm com litografia DUV, marcou o retorno da Huawei ao mercado de smartphones de alto desempenho.

Ecossistema próprio e estratégia de sobrevivência

Além dos chips Kirin para smartphones, a Huawei desenvolve processadores Ascend para inteligência artificial, chips Kunpeng para servidores baseados em arquitetura ARM, e o sistema operacional HarmonyOS como alternativa ao Android. Essa estratégia de construir um ecossistema completo visa reduzir a dependência de fornecedores americanos em todas as camadas tecnológicas.

A Huawei também está investindo pesadamente em ferramentas de design de chips (EDA) e em equipamentos de fabricação de semicondutores. A empresa entende que a verdadeira independência só será alcançada quando a China dominar toda a cadeia produtiva, desde o software de design até as máquinas de litografia.

O cenário brasileiro

O Brasil é um grande mercado para a Huawei, especialmente em equipamentos de telecomunicações para redes 4G e 5G. A empresa tem presença significativa no país, fornecendo infraestrutura para as principais operadoras brasileiras. No entanto, o Brasil não participa da cadeia de valor dos chips Kirin ou de qualquer outro semicondutor avançado.

A dependência brasileira de chips importados ficou evidente durante a crise global de semicondutores de 2021-2022, quando a indústria automotiva nacional sofreu paralisações por falta de componentes. Essa vulnerabilidade expôs a fragilidade estratégica do Brasil em um setor cada vez mais crítico para a economia moderna.

Lições para o Brasil

A resiliência da Huawei diante das sanções demonstra a importância de investir em capacidades tecnológicas próprias antes de uma crise. O Brasil poderia começar desenvolvendo competências em design de chips (fabless), um segmento que exige menos capital que a fabricação e onde engenheiros brasileiros poderiam se destacar. Empresas como a chipABI já demonstram que há talento no país.

Outra lição é a importância de diversificar fornecedores. Enquanto a Huawei construiu alternativas a cada componente americano, o Brasil continua dependente de poucos fornecedores para tecnologias críticas. Uma política de diversificação de fornecedores e desenvolvimento de alternativas locais seria prudente para a segurança tecnológica nacional.

Perguntas Frequentes (FAQ)

O que é o chip Kirin da Huawei?

O Kirin é uma linha de processadores desenvolvida pela HiSilicon, subsidiária da Huawei. Esses chips equipam smartphones, tablets e outros dispositivos da Huawei. O Kirin 9000S, lançado em 2023, é fabricado pela SMIC em processo de 7 nm.

Como a Huawei superou as sanções americanas?

A Huawei recorreu à SMIC para fabricar o Kirin 9000S usando litografia DUV em vez de EUV, acumulou estoques de componentes, desenvolveu seu próprio sistema operacional (HarmonyOS) e está investindo em ferramentas de design e equipamentos de fabricação chineses.

O Kirin 9000S é tão bom quanto os chips da Qualcomm?

O Kirin 9000S oferece desempenho comparável ao Snapdragon 888 da Qualcomm, mas fica atrás dos processadores mais recentes como o Snapdragon 8 Gen 3. A limitação deve-se ao processo de fabricação em 7 nm com DUV, menos eficiente que o 4 nm com EUV.

A Huawei opera no Brasil?

Sim, a Huawei tem presença significativa no Brasil, fornecendo equipamentos de telecomunicações para operadoras como Vivo, TIM e Claro. A empresa também comercializa smartphones e outros dispositivos eletrônicos no mercado brasileiro.

O que é HarmonyOS?

HarmonyOS é o sistema operacional desenvolvido pela Huawei como alternativa ao Android do Google, ao qual perdeu acesso devido às sanções americanas. O sistema já é utilizado em smartphones, tablets, smartwatches e dispositivos IoT da Huawei, principalmente no mercado chinês.