A Global Energy Interconnection Development and Cooperation Organization (GEIDCO), criada pela State Grid da China em 2016, propõe algo audacioso: uma rede elétrica global que conecte continentes, permitindo que energia solar do Saara alimente cidades na Europa e que eólica do Ártico alimente fábricas na China.
O conceito de interconexão global
A visão GEIDCO se baseia em três premissas: (1) os melhores recursos de energia renovável estão em locais remotos (desertos, áreas polares, mares abertos); (2) a tecnologia UHV permite transmitir energia por milhares de quilômetros com perdas aceitáveis; (3) a interconexão entre fusos horários permite que o sol "nunca se ponha" na rede — quando é noite na China, é dia na Europa.
O projeto prevê três fases: interconexão doméstica (em andamento), interconexão continental (Ásia-Europa via linhas UHV terrestres e submarinas) e interconexão intercontinental (conectando todos os continentes até 2070). O investimento total estimado é de US$ 50 trilhões ao longo de décadas.
Projetos em andamento
Interconexões regionais já existem: a China conectou-se à rede elétrica da Mongólia, Rússia e países da Ásia Central. O projeto de transmissão China-Paquistão (como parte do CPEC) é outro exemplo. Na Europa, um cabo submarino conectando Marrocos ao Reino Unido via energia solar do Saara está em desenvolvimento (embora não seja chinês).
A State Grid também investiu em redes elétricas de Brasil, Portugal, Itália, Grécia e Filipinas, criando uma presença global que pode facilitar futuras interconexões. Os investimentos totais da State Grid no exterior ultrapassam US$ 30 bilhões.
O cenário brasileiro
O Brasil já é parceiro da GEIDCO e tem experiência com investimentos da State Grid em sua rede de transmissão. A interconexão elétrica do Brasil com vizinhos é limitada: existe conexão com Paraguai (Itaipu), Uruguai, Argentina e Venezuela, mas não há uma rede integrada sul-americana.
Uma interconexão elétrica sul-americana mais robusta permitiria aproveitar a complementaridade entre fontes: hidrelétrica da Amazônia, solar do Atacama (Chile), eólica da Patagônia (Argentina) e biomassa do Centro-Oeste brasileiro.
Lições para o Brasil
A visão chinesa de supergrid global pode parecer distante, mas a interconexão regional sul-americana é viável e vantajosa. O Brasil, como maior economia da região, deveria liderar a integração elétrica, usando tecnologia UHV para conectar os polos de geração renovável da América do Sul.
A cooperação com a China em tecnologia de transmissão — já demonstrada na linha de Belo Monte — pode ser expandida para projetos de interconexão regional. Um supergrid sul-americano beneficiaria todos os países, reduzindo custos e aumentando a confiabilidade do suprimento elétrico.
Perguntas Frequentes (FAQ)
O que é o GEIDCO?
A Global Energy Interconnection Development and Cooperation Organization é uma organização criada pela State Grid da China em 2016 para promover a interconexão energética global. Propõe conectar redes elétricas de todos os continentes usando tecnologia UHV.
Um supergrid global é viável?
Tecnicamente sim — a tecnologia UHV já permite transmitir energia por mais de 3.000 km com perdas de 3%. Os desafios são geopolíticos (cooperação entre países), financeiros (US$ 50 trilhões de investimento) e de segurança (cibersegurança da rede).
A State Grid investe no Brasil?
Sim, a State Grid é a maior investidora estrangeira no setor elétrico brasileiro, controlando a transmissão de Belo Monte (2.500 km de UHV) e participações em concessionárias de transmissão. Os investimentos no Brasil ultrapassam US$ 10 bilhões.
O que é interconexão elétrica regional?
É a conexão das redes elétricas de países vizinhos, permitindo que energia seja exportada e importada conforme a disponibilidade. O Brasil tem conexões com Paraguai, Uruguai, Argentina e Venezuela, mas são limitadas em capacidade.
Quando o supergrid seria construído?
A visão GEIDCO prevê interconexão doméstica (já em andamento), continental (2030-2050) e intercontinental (2050-2070). A viabilidade depende de avanços tecnológicos, cooperação internacional e investimentos massivos ao longo de décadas.