As terras raras — 17 elementos químicos como neodímio, disprósio e lantânio — são essenciais para motores de EVs, turbinas eólicas, smartphones e equipamentos militares. A China controla 60% da mineração global e mais de 90% do processamento dessas matérias-primas, conferindo-lhe um poder estratégico enorme sobre as cadeias de tecnologia limpa.
O domínio chinês em terras raras
A China não é o país com as maiores reservas de terras raras (o Vietnã e o Brasil têm reservas significativas), mas consolidou o domínio ao investir pesadamente em processamento e refino nas décadas de 1990 e 2000. Enquanto outros países abandonaram a mineração de terras raras por questões ambientais e de custo, a China expandiu.
O processamento de terras raras é particularmente concentrado: mais de 90% da separação e refino ocorre na China. Mesmo quando o minério é extraído em outros países (Austrália, Mianmar), é enviado à China para processamento. Os ímãs de neodímio — essenciais para motores elétricos e turbinas eólicas — são fabricados quase exclusivamente na China.
Em termos quantitativos, a China investiu mais de US$ 890 bilhões em energia limpa apenas em 2025, representando quase metade do investimento global no setor. Esse volume de recursos supera o PIB de muitos países e reflete a determinação chinesa em liderar a transição energética. Para o Brasil, que investiu US$ 22 bilhões no mesmo período, a disparidade evidencia tanto o potencial de crescimento quanto a necessidade de políticas industriais mais ambiciosas.
Instrumento geopolítico
A China já demonstrou que está disposta a usar as terras raras como instrumento geopolítico. Em 2010, cortou exportações para o Japão durante uma disputa territorial. Em 2023, restringiu exportações de gálio e germânio em resposta a sanções americanas sobre semicondutores.
Essa concentração preocupa governos ocidentais. EUA, UE, Japão, Austrália e Canadá estão investindo em cadeias alternativas de terras raras, mas a reconstrução dessas capacidades leva anos e bilhões em investimento. A China tem décadas de vantagem.
A dimensão histórica dessa transformação é notável: em apenas duas décadas, a China passou de importadora líquida de tecnologias energéticas para o maior exportador mundial de equipamentos de geração limpa. Essa trajetória contrasta com a do Brasil, que apesar de possuir recursos naturais abundantes, ainda não desenvolveu uma cadeia industrial competitiva em energia renovável. As consequências dessa assimetria se refletem na balança comercial bilateral, com o Brasil importando bilhões em equipamentos energéticos chineses anualmente.
O cenário brasileiro
O Brasil possui a terceira maior reserva mundial de terras raras, estimada em mais de 21 milhões de toneladas. No entanto, praticamente nenhuma é extraída ou processada comercialmente. O país exporta nióbio (do qual é o maior produtor mundial, com 90% do mercado), mas não desenvolveu capacidade em terras raras.
Há projetos de exploração em Goiás (Serra Verde) e Minas Gerais, mas nenhum atingiu escala comercial significativa. A falta de infraestrutura de processamento, regulação adequada e conhecimento técnico são barreiras.
Do ponto de vista regulatório, a abordagem chinesa de metas obrigatórias nos Planos Quinquenais criou previsibilidade para investidores e fabricantes. Enquanto isso, o Brasil opera com leilões periódicos que não oferecem a mesma estabilidade de longo prazo. Especialistas do setor apontam que a criação de um marco regulatório com metas decenais vinculantes poderia acelerar significativamente a transição energética brasileira.
Lições para o Brasil
O caso das terras raras ilustra uma lição fundamental: ter a matéria-prima não é suficiente sem capacidade de processamento e industrialização. O Brasil poderia replicar o modelo chinês: investir em processamento doméstico, atrair empresas de separação e refino, e criar uma cadeia de valor de minerais estratégicos.
A oportunidade é real: a demanda por terras raras deve triplicar até 2040 com a transição energética. O Brasil, com suas vastas reservas, poderia se posicionar como fornecedor alternativo à China, mas precisa agir rapidamente para não perder mais uma janela de oportunidade na cadeia de tecnologias limpas.
Em termos quantitativos, a China investiu mais de US$ 890 bilhões em energia limpa apenas em 2025, representando quase metade do investimento global no setor. Esse volume de recursos supera o PIB de muitos países e reflete a determinação chinesa em liderar a transição energética. Para o Brasil, que investiu US$ 22 bilhões no mesmo período, a disparidade evidencia tanto o potencial de crescimento quanto a necessidade de políticas industriais mais ambiciosas.
Dados e Estatísticas-Chave
| Indicador | China | Brasil | Mundo |
|---|---|---|---|
| Produção de painéis solares | 80% global | <1% | 600 GW/ano |
| Participação solar na matriz | 18,5% | 7,2% | 6,1% |
| Meta de carbono neutro | 2060 | 2050 | Varia |
| Capacidade renovável instalada | 1.450 GW | 210 GW | 4.200 GW |
| Emissões de CO₂ per capita (ton) | 8,9 | 2,3 | 4,7 |
Análise do Especialista
O arcabouço regulatório chinês para energia demonstra uma integração entre política industrial, financeira e ambiental que raramente se observa no Ocidente. No contexto brasileiro, os profissionais jurídicos e financeiros precisam compreender que a regulação energética chinesa é simultaneamente instrumento de política industrial e de competitividade internacional. As implicações para o comércio bilateral são profundas: cada GW instalado no Brasil com equipamentos chineses gera empregos e receita tributária na China, não aqui.
Este tema — terras raras o domínio chinês nos minerais estratégicos do futuro — ilustra como a compreensão aprofundada do modelo chinês é indispensável para profissionais brasileiros de direito, finanças e relações internacionais que buscam navegar a crescente complexidade das relações sino-brasileiras no século XXI.
Perguntas Frequentes (FAQ)
O que são terras raras?
São 17 elementos químicos (lantanídeos + escândio e ítrio) com propriedades magnéticas, luminescentes e catalíticas únicas. São essenciais para motores elétricos, turbinas eólicas, smartphones, lasers e equipamentos militares. Apesar do nome, não são geologicamente raras, mas seu processamento é complexo.
Por que a China domina as terras raras?
A China investiu pesadamente em mineração e processamento nas décadas de 1990-2000, quando outros países abandonaram o setor por questões ambientais e de custo. O país controla 60% da mineração e mais de 90% do processamento global de terras raras.
O Brasil tem terras raras?
Sim, o Brasil possui a terceira maior reserva mundial de terras raras, estimada em mais de 21 milhões de toneladas. No entanto, praticamente nenhuma é extraída ou processada comercialmente no país.
Terras raras podem ser usadas como arma geopolítica?
Sim, a China já restringiu exportações de minerais estratégicos em disputas geopolíticas (Japão em 2010, gálio/germânio em 2023). A concentração do processamento em um único país cria vulnerabilidades para a cadeia global de tecnologia.
Existem alternativas às terras raras?
Pesquisadores buscam alternativas: motores elétricos sem ímãs permanentes, ímãs de ferrite, reciclagem de dispositivos eletrônicos e substituição parcial por outros materiais. Mas no curto e médio prazo, as terras raras continuam indispensáveis.