Os BRICS — originalmente Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — passaram de um acrônimo criado por um analista do Goldman Sachs em 2001 para um bloco geopolítico que representa mais de 40% da população mundial e cerca de 35% do PIB global em paridade de poder de compra. A China, como a maior economia do grupo, exerce uma liderança de facto que molda a agenda e a direção do bloco.

A influência chinesa na arquitetura dos BRICS

A China foi a principal arquiteta da institucionalização dos BRICS, impulsionando a criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), sediado em Xangai, com capital inicial de US$ 100 bilhões. O NDB já aprovou mais de US$ 33 bilhões em projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável em países membros, oferecendo uma alternativa concreta ao Banco Mundial e ao FMI.

Na cúpula de Joanesburgo em 2023, a China liderou a expansão do bloco para incluir Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito, Etiópia e Irã. Essa ampliação, fortemente apoiada por Pequim, incorporou ao grupo grandes produtores de petróleo e ampliou significativamente a representatividade geográfica, consolidando os BRICS como uma plataforma que abrange mais de 45% da população mundial.

As consequências regulatórias e jurídicas do aprofundamento comercial com a China são múltiplas: questões de dumping, barreiras fitossanitárias, proteção de propriedade intelectual e disputas na OMC exigem profissionais especializados em direito comercial internacional com conhecimento do sistema jurídico chinês. O número de litígios comerciais entre os dois países cresceu 340% na última década, refletindo a complexidade crescente da relação bilateral.

A agenda de desdolarização e o yuan

Um dos pilares da estratégia chinesa nos BRICS é a redução da dependência do dólar americano no comércio internacional. A China tem celebrado acordos bilaterais de swap cambial com dezenas de países e incentivado o uso do yuan em transações comerciais dentro do bloco. Em 2023, o yuan ultrapassou o dólar como a moeda mais utilizada no comércio exterior da Rússia.

O Arranjo Contingente de Reservas (CRA) dos BRICS, com US$ 100 bilhões em recursos, funciona como uma rede de segurança financeira alternativa ao FMI. A China contribui com a maior cota (US$ 41 bilhões), refletindo seu peso econômico e sua ambição de reformar o sistema financeiro internacional.

O comércio bilateral China-Brasil alcançou US$ 185 bilhões em 2025, consolidando a China como o maior parceiro comercial do Brasil pelo 16º ano consecutivo. No entanto, a composição desse comércio revela uma assimetria preocupante: o Brasil exporta predominantemente commodities (soja, minério de ferro, petróleo) enquanto importa manufaturados de alto valor agregado (eletrônicos, máquinas, veículos elétricos). Essa estrutura perpetua um padrão colonial de comércio que limita a sofisticação da economia brasileira.

O cenário brasileiro

O Brasil é membro fundador dos BRICS e ocupa posição estratégica como a maior economia da América Latina. A China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009, com comércio bilateral que ultrapassou US$ 180 bilhões em 2023. No entanto, a relação é assimétrica: o Brasil exporta majoritariamente commodities (soja, minério de ferro, petróleo) enquanto importa manufaturados de alto valor agregado.

A participação brasileira no NDB tem sido fundamental para financiar projetos de infraestrutura, energia renovável e saneamento. O banco já aprovou bilhões em empréstimos para projetos no Brasil, incluindo investimentos em mobilidade urbana e energia limpa, representando uma fonte alternativa de financiamento internacional.

A perspectiva histórica do comércio exterior chinês é de transformação radical: em 1980, as exportações chinesas eram de US$ 18 bilhões, compostas principalmente por petróleo e têxteis básicos. Hoje, com US$ 3,7 trilhões, a China é o maior exportador mundial e seus produtos lideram em setores de alta tecnologia. Para o Brasil, essa trajetória demonstra que diversificação da pauta exportadora é possível com política industrial adequada — mas exige décadas de esforço consistente.

Lições para o Brasil

A principal lição é que o Brasil precisa usar os BRICS como plataforma para diversificar suas parcerias comerciais e tecnológicas, não apenas como canal para exportação de commodities. A China utiliza o bloco para projetar seu poder econômico e tecnológico, enquanto o Brasil ainda não articulou uma estratégia clara de inserção que agregue valor.

O Brasil pode se beneficiar enormemente da agenda de desdolarização ao reduzir custos de transação com parceiros dos BRICS, mas precisa investir em infraestrutura financeira para liquidar operações em moedas locais. Além disso, a cooperação em ciência e tecnologia dentro do bloco — área em que a China investe pesadamente — poderia ser melhor aproveitada para transferência de conhecimento.

As consequências regulatórias e jurídicas do aprofundamento comercial com a China são múltiplas: questões de dumping, barreiras fitossanitárias, proteção de propriedade intelectual e disputas na OMC exigem profissionais especializados em direito comercial internacional com conhecimento do sistema jurídico chinês. O número de litígios comerciais entre os dois países cresceu 340% na última década, refletindo a complexidade crescente da relação bilateral.

Dados e Estatísticas-Chave

IndicadorChinaBrasilMundo
IED no exterior (acumulado)US$ 2,8 triUS$ 420 biUS$ 45 tri
Saldo comercial (2025)+US$ 850 bi+US$ 70 biN/A
Participação nas exportações globais14,8%1,4%N/A
Acordos comerciais vigentes22 TLCs4 TLCs (via Mercosul)> 350 TLCs
Exportações totais (2025)US$ 3,7 triUS$ 350 biUS$ 25 tri

Análise do Especialista

A relação comercial Brasil-China é a mais importante e a menos compreendida do comércio exterior brasileiro. Para advogados e profissionais de finanças internacionais, dominar as particularidades do sistema jurídico-comercial chinês — desde a Lei de Comércio Exterior até as regulações do MOFCOM — é uma competência cada vez mais valorizada. A tendência de desdolarização parcial do comércio bilateral, com liquidação em yuan, adiciona uma camada de complexidade jurídica e financeira que poucos profissionais brasileiros dominam.

Este tema — brics e a liderança econômica da china o novo eixo de poder global — ilustra como a compreensão aprofundada do modelo chinês é indispensável para profissionais brasileiros de direito, finanças e relações internacionais que buscam navegar a crescente complexidade das relações sino-brasileiras no século XXI.

Perguntas Frequentes (FAQ)

Qual é o papel da China nos BRICS?

A China é a maior economia do bloco e exerce liderança de facto, tendo impulsionado a criação do Novo Banco de Desenvolvimento, a expansão do grupo em 2023 e a agenda de desdolarização do comércio internacional.

O que é o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS?

O NDB é uma instituição financeira multilateral criada pelos BRICS em 2014, com sede em Xangai. Já aprovou mais de US$ 33 bilhões em projetos e oferece uma alternativa ao Banco Mundial e ao FMI para países em desenvolvimento.

O Brasil se beneficia dos BRICS?

Sim, o Brasil se beneficia com acesso a financiamento via NDB, diversificação de parcerias comerciais e maior peso em negociações multilaterais. No entanto, a relação comercial com a China dentro do bloco ainda é fortemente baseada em exportação de commodities.

Os BRICS vão substituir o G7?

Não há uma substituição direta, mas os BRICS representam um contrapeso crescente. Com a expansão de 2023, o bloco passou a representar mais de 45% da população mundial e uma parcela crescente do PIB global, desafiando a primazia das instituições controladas pelo G7.

O que é a desdolarização promovida pelos BRICS?

É o esforço para reduzir o uso do dólar americano no comércio entre países membros, substituindo-o por moedas locais ou mecanismos alternativos. A China lidera essa agenda com acordos de swap cambial e promoção do yuan como moeda de comércio internacional.