A China está construindo a maior concentração de parques solares e eólicos da história no deserto de Gobi e nas planícies semiáridas do noroeste. O programa de "bases de energia renovável em larga escala" prevê 450 GW de capacidade em projetos que integram solar, eólica, armazenamento e transmissão UHV.
O programa de bases de energia renovável
Anunciado em 2021, o programa prevê a construção de complexos integrados de energia renovável nas regiões desérticas e semiáridas do noroeste chinês — Gobi, Taklamakan, Kubuqi e planícies da Mongólia Interior. A primeira fase (200 GW) está em construção e deve ser concluída até 2025.
Cada "base" integra parques solares, eólicos, sistemas de armazenamento por baterias e hidrobombeamento, e linhas de transmissão UHV para enviar a eletricidade aos centros de consumo no leste. O conceito é aproveitar terras improdutivas com excelente irradiação solar (superiores a 1.800 kWh/m²/ano).
Escala sem precedentes
O parque solar de Kubuqi, na Mongólia Interior, é um dos maiores do mundo, com capacidade superior a 30 GW planejados. Outros megaprojetos no Gansu, Qinghai e Xinjiang possuem dezenas de GW cada. Quando concluídos, esses projetos equivalerão à capacidade elétrica total de países como França ou Alemanha.
A construção combina painéis solares com projetos de recuperação ambiental: os painéis sombreiam o solo, reduzindo a evaporação e permitindo o crescimento de vegetação nas áreas desérticas. Alguns projetos combinam solar com pastoreio de ovelhas e cultivo de ervas medicinais nas áreas sombreadas.
O cenário brasileiro
O Nordeste brasileiro, especialmente o semiárido da Bahia, Piauí e Minas Gerais, possui irradiação solar comparável ou superior ao deserto de Gobi. O Brasil já possui grandes parques solares, como o complexo São Gonçalo no Piauí (613 MW), mas nada na escala dos megaprojetos chineses.
A diferença é de ordem de grandeza: enquanto o Brasil planeja parques de centenas de MW, a China constrói complexos de dezenas de GW. A limitação brasileira não é recurso solar — é infraestrutura de transmissão, financiamento e escala de planejamento.
Lições para o Brasil
O Brasil poderia adaptar o modelo chinês de "bases de energia renovável" para o semiárido nordestino, integrando solar, eólica, armazenamento e transmissão em projetos coordenados. A combinação de solar com atividades agrícolas (agrivoltaico) é particularmente promissora para a agricultura familiar do semiárido.
O planejamento integrado — construir transmissão, geração e armazenamento de forma coordenada — é a maior lição. No Brasil, a transmissão é planejada separadamente da geração, criando gargalos. O modelo chinês de "mega bases" resolve esse problema ao projetar tudo junto.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Quanta energia solar será instalada no deserto de Gobi?
O programa de bases de energia renovável prevê 450 GW de capacidade solar e eólica combinada nas regiões desérticas da China. A primeira fase de 200 GW está em construção e deve ser concluída até 2025.
Como a energia do deserto chega às cidades?
Através de linhas de transmissão em Ultra-Alta Voltagem (UHV), que transportam eletricidade por mais de 3.000 km com perdas mínimas. Novas linhas UHV estão sendo construídas especificamente para conectar as bases de energia renovável aos centros de consumo no leste da China.
Painéis solares funcionam no deserto?
Sim, desertos são ideais para energia solar: alta irradiação, poucas nuvens e vastas áreas disponíveis. O principal desafio é a poeira (que requer limpeza regular dos painéis) e as temperaturas extremas (que reduzem ligeiramente a eficiência).
O Nordeste brasileiro é comparável ao Gobi?
Em termos de irradiação solar, sim — o semiárido nordestino recebe irradiação de 1.800-2.400 kWh/m²/ano, comparável ou superior ao Gobi. A diferença está na escala do planejamento e na infraestrutura de transmissão.
Painéis solares podem ajudar no combate à desertificação?
Sim, a China demonstrou que painéis solares sombreiam o solo, reduzem evaporação e podem permitir o crescimento de vegetação embaixo. Alguns projetos no Gobi combinam solar com recuperação ambiental, criando um modelo agrivoltaico para áreas degradadas.