Energia

Energia Nuclear na China: A Expansão dos Reatores de Geração IV

A China está construindo mais reatores nucleares do que qualquer outro país, incluindo tecnologias de Geração IV. Análise da estratégia nuclear chinesa.

Matheus Feijão·OAB/SP · Google Cloud Certified·Março 2026

Enquanto muitos países ocidentais debatem o futuro da energia nuclear, a China está construindo reatores em ritmo acelerado. Com mais de 20 unidades em construção simultânea e planos para triplicar sua capacidade nuclear até 2035, o programa nuclear chinês é o mais ambicioso do mundo.

O programa nuclear chinês em números

A China opera atualmente mais de 55 reatores nucleares comerciais, com capacidade total superior a 57 GW. Há mais de 20 reatores adicionais em construção, tornando a China o país com o maior programa de expansão nuclear do mundo. O objetivo é alcançar 150 GW de capacidade instalada até 2035.

O país desenvolveu seu próprio reator de terceira geração, o Hualong One ([HPR1000](/artigos/energia/usinas-nucleares-hualong-one/)), que incorpora sistemas de segurança passiva e tem vida útil de 60 anos. Já existem unidades Hualong One em operação na China e sendo exportadas para o Paquistão e outras nações.

Em termos quantitativos, a China investiu mais de US$ 890 bilhões em energia limpa apenas em 2025, representando quase metade do investimento global no setor. Esse volume de recursos supera o PIB de muitos países e reflete a determinação chinesa em liderar a transição energética. Para o Brasil, que investiu US$ 22 bilhões no mesmo período, a disparidade evidencia tanto o potencial de crescimento quanto a necessidade de políticas industriais mais ambiciosas.

Tecnologias de Geração IV

A China é líder mundial no desenvolvimento de reatores de Geração IV. O reator HTR-PM (High Temperature Reactor - Pebble Bed Module) em Shidaowan, na província de Shandong, é o primeiro reator modular de alta temperatura do mundo a entrar em operação comercial. Este tipo de reator é considerado intrinsecamente seguro, pois não pode sofrer fusão do núcleo.

Além do HTR-PM, a China está investindo pesadamente em reatores a sal fundido de tório (TMSR), reatores rápidos refrigerados a sódio e reatores a chumbo líquido. O CFR-600, um reator rápido refrigerado a sódio, está em construção e promete queimar resíduos nucleares como combustível.

O programa de [fusão nuclear](/artigos/energia/fusao-nuclear-tokamak-china/) também avança: o tokamak EAST (Experimental Advanced Superconducting Tokamak) atingiu temperaturas de 120 milhões de graus Celsius por 101 segundos, um recorde que aproxima a humanidade da energia de fusão.

O cenário brasileiro

O Brasil opera apenas duas usinas nucleares (Angra 1 e 2), com Angra 3 em construção há décadas com atrasos crônicos. A participação nuclear na matriz elétrica brasileira é inferior a 3%, enquanto na China já ultrapassa 5% e cresce rapidamente. O Brasil possui a sexta maior reserva de urânio do mundo, mas não desenvolveu uma indústria nuclear robusta.

A diferença de abordagem é gritante: enquanto a China constrói reatores nucleares em 5-6 anos, Angra 3 está em construção desde 1984. A burocracia, a falta de continuidade política e a resistência social são entraves que a China não enfrenta na mesma medida.

Do ponto de vista regulatório, a abordagem chinesa de metas obrigatórias nos Planos Quinquenais criou previsibilidade para investidores e fabricantes. Enquanto isso, o Brasil opera com leilões periódicos que não oferecem a mesma estabilidade de longo prazo. Especialistas do setor apontam que a criação de um marco regulatório com metas decenais vinculantes poderia acelerar significativamente a transição energética brasileira.

Lições para o Brasil

A principal lição é a importância de uma política energética de longo prazo com continuidade entre governos. A China trata energia nuclear como questão de segurança nacional e [desenvolvimento econômico](/artigos/economia/pib-china-crescimento-historico/), não como pauta ideológica. O desenvolvimento de tecnologia própria (Hualong One) também demonstra que é possível internalizar conhecimento e reduzir dependência tecnológica.

O Brasil poderia se beneficiar de pequenos reatores modulares (SMRs) para atender áreas remotas na Amazônia e complementar a geração hidrelétrica. A cooperação com a China nessa área — já discutida em fóruns bilaterais — poderia acelerar o programa nuclear brasileiro.

Em termos quantitativos, a China investiu mais de US$ 890 bilhões em energia limpa apenas em 2025, representando quase metade do investimento global no setor. Esse volume de recursos supera o PIB de muitos países e reflete a determinação chinesa em liderar a transição energética. Para o Brasil, que investiu US$ 22 bilhões no mesmo período, a disparidade evidencia tanto o potencial de crescimento quanto a necessidade de políticas industriais mais ambiciosas.

Dados e Estatísticas-Chave

| Indicador | China | Brasil | Mundo |

| --- | --- | --- | --- |

| Investimento anual em energia limpa | US$ 890 bi | US$ 22 bi | US$ 1,8 tri |

| Capacidade nuclear instalada | 65 GW | 2 GW | 440 GW |

| Produção de painéis solares | 80% global | | 600 GW/ano |

| Participação solar na matriz | 18,5% | 7,2% | 6,1% |

| Meta de carbono neutro | 2060 | 2050 | Varia |

Análise do Especialista

O arcabouço regulatório chinês para energia demonstra uma integração entre política industrial, financeira e ambiental que raramente se observa no Ocidente. No contexto brasileiro, os profissionais jurídicos e financeiros precisam compreender que a regulação energética chinesa é simultaneamente instrumento de política industrial e de competitividade internacional. As implicações para o comércio bilateral são profundas: cada GW instalado no Brasil com equipamentos chineses gera empregos e receita tributária na China, não aqui.

Este tema — energia nuclear na china a expansão dos reatores de geração iv — ilustra como a compreensão aprofundada do modelo chinês é indispensável para profissionais brasileiros de direito, finanças e relações internacionais que buscam navegar a crescente complexidade das relações sino-brasileiras no século XXI.

Perguntas Frequentes (FAQ)

Sobre o Autor

Matheus FeijãoOAB/SP · Google Cloud Certified. Pesquisador independente focado no sistema financeiro chinês, regulação bancária e tecnologia soberana.