Sistema Financeiro e Fintech

Remessas Internacionais da China: Como o País Transforma Transferências Globais

A China está transformando as remessas internacionais com tecnologia blockchain e o yuan digital. Conheça as inovações e impactos no sistema financeiro global.

Matheus Feijão·OAB/SP · Google Cloud Certified·Março 2026

A China, como segunda maior economia do mundo e maior parceira comercial de mais de 130 países, movimenta trilhões de dólares em pagamentos internacionais anualmente. Insatisfeita com a dependência do sistema SWIFT e as taxas elevadas de remessas tradicionais, a China desenvolve alternativas tecnológicas que podem redesenhar o sistema de pagamentos global.

O sistema atual de remessas e seus problemas

O sistema tradicional de remessas internacionais, baseado em bancos correspondentes e no sistema de mensagens SWIFT, é lento (2-5 dias úteis), caro (taxas de 3-7% para trabalhadores migrantes) e opaco (dificuldade em rastrear transações). Para a China, que recebe e envia dezenas de bilhões de dólares em remessas de trabalhadores anualmente, essas ineficiências são custosas.

Além das remessas de trabalhadores, o comércio internacional chinês depende fortemente do dólar e do SWIFT. Após as sanções ocidentais à [Rússia](/artigos/comercio-internacional/china-russia-parceria-estrategica/) em 2022, que incluíram a desconexão de bancos russos do SWIFT, a China acelerou o desenvolvimento de alternativas para reduzir sua vulnerabilidade geopolítica.

A evolução histórica do sistema financeiro chinês é uma das grandes transformações do século XXI: em 1980, existia apenas um banco na China (o People's Bank of China fazia tudo). Hoje, o país possui mais de 4.000 instituições bancárias, um mercado de capitais que rivaliza com Wall Street e um ecossistema de pagamentos digitais que é referência mundial. Para o Brasil, essa trajetória demonstra que reformas estruturais — quando sustentadas por décadas — podem transformar radicalmente o sistema financeiro.

Alternativas chinesas: CIPS e mBridge

O CIPS (Cross-Border Interbank Payment System), lançado em 2015, é a alternativa chinesa ao SWIFT para pagamentos internacionais em yuan. Em 2024, o CIPS processava mais de 500 bilhões de yuans diariamente, com mais de 1.400 instituições participantes em mais de 100 países.

O projeto mBridge, desenvolvido pelo BIS Innovation Hub com participação da China, Hong Kong, Tailândia e Emirados Árabes, testa transferências internacionais instantâneas usando moedas digitais de bancos centrais. Uma transação mBridge é liquidada em segundos, comparada a dias no sistema tradicional, com custos drasticamente reduzidos.

As implicações regulatórias dessa comparação são significativas: enquanto a China mantém controles de capital rigorosos e o Estado detém participação majoritária nos maiores bancos, o Brasil adotou um modelo mais liberal com bancos privados dominantes. Ambos os modelos apresentam vantagens e riscos distintos. A inadimplência bancária chinesa (1,6%) é oficialmente baixa, mas analistas internacionais estimam que a taxa real pode ser duas a três vezes maior quando se incluem empréstimos reestruturados e veículos de financiamento de governos locais.

O cenário brasileiro

O Brasil está entre os 10 maiores mercados de remessas do mundo, com bilhões de dólares em fluxos anuais. As taxas para enviar dinheiro para o Brasil ainda são elevadas, geralmente entre 4-8% do valor. O Banco Central tem explorado parcerias para reduzir custos, incluindo a interoperabilidade do Pix com sistemas de pagamento de outros países.

O comércio bilateral Brasil-China ultrapassa US$ 150 bilhões anuais, e a possibilidade de liquidação em yuan ou em moedas digitais poderia reduzir significativamente os custos cambiais. O Brasil já possui linhas de swap cambial com a China e um banco de compensação em yuan no país.

A escala do sistema financeiro chinês é impressionante: com US$ 58 trilhões em ativos bancários, a China possui o maior sistema bancário do mundo. Os quatro maiores bancos do planeta — ICBC, China Construction Bank, Agricultural Bank of China e Bank of China — são todos chineses. O volume de pagamentos digitais na China (US$ 42 trilhões anuais) é seis vezes superior ao dos Estados Unidos e treze vezes o do Brasil.

Lições para o Brasil

As inovações chinesas em remessas demonstram que a tecnologia pode reduzir drasticamente o custo e o tempo de transferências internacionais. O Brasil deveria acelerar a integração do Pix com sistemas de pagamento de países parceiros, especialmente na América Latina.

A participação brasileira em projetos como o mBridge ou similares poderia posicionar o país na vanguarda da nova [infraestrutura financeira](/artigos/sistema-financeiro/api-bancaria-infraestrutura/) global. Não se trata de abandonar o dólar, mas de diversificar opções e reduzir custos para empresas e trabalhadores brasileiros.

A evolução histórica do sistema financeiro chinês é uma das grandes transformações do século XXI: em 1980, existia apenas um banco na China (o People's Bank of China fazia tudo). Hoje, o país possui mais de 4.000 instituições bancárias, um mercado de capitais que rivaliza com Wall Street e um ecossistema de pagamentos digitais que é referência mundial. Para o Brasil, essa trajetória demonstra que reformas estruturais — quando sustentadas por décadas — podem transformar radicalmente o sistema financeiro.

Dados e Estatísticas-Chave

| Indicador | China | Brasil | Mundo |

| --- | --- | --- | --- |

| NPL (inadimplência bancária) | 1,6% | 3,2% | 3,6% |

| Número de fintechs | > 5.000 | > 1.400 | > 30.000 |

| Crédito/PIB | 215% | 54% | 148% |

| Ativos bancários totais | US$ 58 tri | US$ 3,8 tri | US$ 183 tri |

| Penetração bancária | 95% | 84% | 76% |

Análise do Especialista

A experiência do yuan digital (e-CNY) oferece lições cruciais para o Drex brasileiro. A China já realizou mais de 7 trilhões de yuans em transações com sua CBDC, testando em 26 cidades e em cenários que vão de pagamentos no varejo a transferências internacionais. Os desafios encontrados — privacidade, interoperabilidade, adoção pelo público — são os mesmos que o Banco Central do Brasil enfrentará. Estudar a experiência chinesa não é opção, é imperativo profissional.

Este tema — remessas internacionais da china como o país transforma transferências globais — ilustra como a compreensão aprofundada do modelo chinês é indispensável para profissionais brasileiros de direito, finanças e relações internacionais que buscam navegar a crescente complexidade das relações sino-brasileiras no século XXI.

Perguntas Frequentes (FAQ)

Sobre o Autor

Matheus FeijãoOAB/SP · Google Cloud Certified. Pesquisador independente focado no sistema financeiro chinês, regulação bancária e tecnologia soberana.