Em julho de 2017, o Conselho de Estado da China publicou o "Plano de Desenvolvimento de Inteligência Artificial de Nova Geração" — o documento mais ambicioso já produzido por qualquer governo sobre IA. O plano estabelece três marcos: alcançar paridade tecnológica com os líderes mundiais até 2020, realizar avanços significativos até 2025 e tornar-se o centro global de inovação em IA até 2030. Quase uma década depois, os resultados são impressionantes.
Os três estágios do plano
O plano de 2017 define uma estratégia em três fases. A Fase 1 (até 2020) visava paridade com os líderes mundiais em tecnologia de IA e criação de uma indústria de IA com receita superior a 150 bilhões de yuans. A Fase 2 (até 2025) busca liderança em áreas selecionadas e uma indústria de IA de 400 bilhões de yuans. A Fase 3 (até 2030) almeja a liderança global absoluta com um ecossistema de IA de 1 trilhão de yuans.
O plano mobiliza todos os níveis de governo: províncias e municípios criaram seus próprios planos de IA alinhados à estratégia nacional. Mais de 20 províncias publicaram políticas específicas de desenvolvimento de IA, com metas de investimento, criação de zonas especiais e formação de talentos.
Resultados e avaliação até 2025
A avaliação do plano até 2025 mostra resultados mistos, mas predominantemente positivos. A China alcançou ou superou a meta de paridade tecnológica da Fase 1 em áreas como visão computacional, reconhecimento de voz e IA aplicada. Em pesquisa, o país lidera em publicações e patentes. Em aplicação comercial, empresas chinesas competem globalmente.
Desafios permanecem: a dependência de hardware estrangeiro (chips) continua sendo o calcanhar de Aquiles, apesar dos avanços da Huawei e SMIC. A formação de talentos de nível PhD ainda depende parcialmente de universidades ocidentais. E a regulação, embora pioneira, pode criar fricções com a velocidade de inovação desejada.
O cenário brasileiro
O Brasil publicou sua Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial (EBIA) em 2021, quatro anos depois do plano chinês. A EBIA é significativamente menos ambiciosa: não define metas quantitativas claras, não aloca orçamento específico e não estabelece mecanismos de coordenação entre governo, academia e indústria. A diferença de escala e comprometimento é abismal.
Enquanto a China investiu bilhões de dólares e mobilizou todo o aparato estatal, a EBIA brasileira permanece em grande parte como carta de intenções. A ausência de financiamento dedicado, metas mensuráveis e revisão periódica torna a estratégia brasileira ineficaz na prática.
Lições para o Brasil
O plano chinês demonstra que uma estratégia nacional de IA eficaz requer três elementos: comprometimento político no mais alto nível, investimento financeiro significativo e dedicado, e mecanismos de coordenação entre governo, universidades e empresas. O Brasil possui apenas o primeiro de forma intermitente e nenhum dos outros dois de forma estruturada.
O Brasil deveria revisar fundamentalmente sua estratégia de IA, estabelecendo metas quantitativas (percentual do PIB em pesquisa de IA, número de graduados, volume de patentes), alocando orçamento plurianual e criando uma agência ou comitê com autoridade real para coordenar esforços. Sem essas medidas, o Brasil continuará como espectador da revolução de IA liderada por China e Estados Unidos.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Quando a China lançou seu plano de IA?
Em julho de 2017, o Conselho de Estado publicou o Plano de Desenvolvimento de Inteligência Artificial de Nova Geração, estabelecendo o objetivo de tornar a China líder mundial em IA até 2030 em três fases.
A China alcançou suas metas de IA?
A China alcançou ou superou a maioria das metas da Fase 1 (paridade tecnológica até 2020) e avança na Fase 2. Lidera em publicações, patentes e aplicações comerciais, mas ainda depende de hardware estrangeiro para chips avançados.
O Brasil tem uma estratégia de IA?
O Brasil publicou a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial (EBIA) em 2021, mas ela não define metas quantitativas claras, não aloca orçamento específico e carece de mecanismos efetivos de implementação. É significativamente menos ambiciosa que o plano chinês.
Quanto a China investe em IA?
O investimento total chinês em IA — somando governo, empresas e capital de risco — ultrapassa dezenas de bilhões de dólares anuais. O plano prevê uma indústria de IA de 1 trilhão de yuans (cerca de US$ 150 bilhões) até 2030.
A China será líder mundial em IA até 2030?
É plausível que a China alcance liderança em diversas áreas de IA até 2030, especialmente em aplicações, patentes e pesquisa. A liderança absoluta depende de resolver a dependência de chips estrangeiros e de fatores geopolíticos como as sanções americanas.