A China passou de um membro relativamente passivo do sistema multilateral para um protagonista que molda ativamente a governança global. Com contribuições financeiras crescentes, liderança em agências especializadas e uso estratégico do veto no Conselho de Segurança, a China está redefinindo como as instituições internacionais funcionam.
A expansão da influência chinesa na ONU
A China é o segundo maior contribuinte financeiro da ONU, respondendo por cerca de 15% do orçamento regular — atrás apenas dos EUA. É também o segundo maior contribuinte para operações de paz e o maior fornecedor de tropas para peacekeeping entre os membros permanentes do Conselho de Segurança. Cidadãos chineses lideram ou lideraram agências como FAO, ITU, ICAO e UNIDO.
O uso estratégico do veto no Conselho de Segurança — frequentemente em coordenação com a Rússia — demonstra como a China protege seus interesses. Vetos sobre questões como Síria, Mianmar e Coreia do Norte refletem a política de não-interferência em assuntos internos de outros países, princípio central da diplomacia chinesa.
Novas instituições e reformas
Além de influenciar instituições existentes, a China criou novas: o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB), o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) dos BRICS e o Fundo da Rota da Seda. Essas instituições oferecem alternativas ao FMI e ao Banco Mundial, sem as condicionalidades de governança frequentemente impostas por essas instituições ocidentais.
A China também promove fóruns próprios como o FOCAC (com a África), o 17+1 (com países da Europa Central e Oriental) e cúpulas da BRI. Essas plataformas permitem à China definir a agenda e os termos de engajamento, em contraste com instituições multilaterais onde precisa negociar com múltiplos atores.
O cenário brasileiro
O Brasil aspira a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU e encontra na China tanto um potencial aliado quanto um obstáculo. A China apoia retoricamente a reforma do Conselho, mas não necessariamente a diluição do poder dos membros permanentes. A diplomacia brasileira precisa navegar essa ambiguidade com habilidade.
O Brasil participa ativamente de instituições criadas ou influenciadas pela China, como o AIIB e o NDB. No G20, Brasil e China frequentemente coordenam posições sobre reforma do sistema financeiro internacional, mudança climática e governança do comércio digital.
Lições para o Brasil
A estratégia chinesa demonstra que influência em instituições multilaterais requer investimento sustentado — financeiro, diplomático e de capital humano. O Brasil deveria ampliar suas contribuições à ONU, formar mais diplomatas especializados em organizações internacionais e lançar candidaturas estratégicas para posições de liderança em agências da ONU.
A criação de instituições alternativas pela China mostra que o status quo não é imutável. O Brasil, como líder natural da América Latina, poderia propor e liderar novas plataformas de cooperação Sul-Sul que complementem — sem substituir — as instituições existentes.
Perguntas Frequentes (FAQ)
A China tem poder de veto na ONU?
Sim, a China é um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (junto com EUA, Rússia, França e Reino Unido) e possui poder de veto. A China usa o veto estrategicamente, frequentemente em coordenação com a Rússia.
Quanto a China contribui para a ONU?
A China é o segundo maior contribuinte financeiro, respondendo por cerca de 15% do orçamento regular da ONU. Também é o maior fornecedor de tropas para operações de paz entre os membros permanentes do Conselho de Segurança.
A China apoia a entrada do Brasil no Conselho de Segurança?
A China expressa apoio retórico à reforma do Conselho de Segurança, mas não se comprometeu explicitamente com a candidatura brasileira a um assento permanente. A posição chinesa é ambígua e depende das negociações sobre o formato da reforma.
O que é o AIIB?
O Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura é uma instituição multilateral criada pela China em 2015 com mais de 100 membros. Financia projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável, oferecendo alternativa ao Banco Mundial e ao Banco Asiático de Desenvolvimento.
A China quer reformar a ONU?
A China apoia reformas seletivas que aumentem a representatividade de países em desenvolvimento, mas resiste a mudanças que diluam o poder dos membros permanentes do Conselho de Segurança ou que introduzam critérios de direitos humanos em decisões econômicas.