A declaração de parceria "sem limites" entre China e Rússia, feita por Xi Jinping e Vladimir Putin em fevereiro de 2022 — apenas dias antes da invasão russa à Ucrânia — marcou um momento definidor na geopolítica do século XXI. A relação sino-russa, historicamente marcada por desconfiança, transformou-se em uma aliança estratégica que desafia a ordem internacional liderada pelo Ocidente.

A dimensão econômica da parceria

O comércio bilateral entre China e Rússia atingiu US$ 240 bilhões em 2023, um aumento de mais de 60% em relação a 2021. A China tornou-se o destino de mais de um terço das exportações russas e a fonte de mais de um terço das importações russas. O petróleo e o gás russos fluem para a China a preços com desconto, enquanto a China exporta eletrônicos, automóveis e bens de consumo para a Rússia.

As sanções ocidentais contra a Rússia após a invasão da Ucrânia aceleraram dramaticamente a reorientação comercial russa para a China. O pagamento em yuan por commodities russas aumentou significativamente, e empresas chinesas ocuparam espaços deixados por companhias ocidentais que se retiraram do mercado russo.

Cooperação energética e militar

O gasoduto Power of Siberia, inaugurado em 2019, fornece gás natural russo à China e representa um vínculo energético de longo prazo. O Power of Siberia 2, em negociação, triplicaria o fornecimento de gás russo para a China. A Rússia também se tornou o segundo maior fornecedor de petróleo da China, muitas vezes superando a Arábia Saudita.

A cooperação militar inclui exercícios conjuntos regulares, patrulhas navais e aéreas coordenadas no Pacífico e transferência de tecnologia militar. A China compra sistemas de defesa russos como o S-400, enquanto fornece componentes eletrônicos que a Rússia já não obtém do Ocidente devido a sanções.

O cenário brasileiro

O Brasil mantém relações com ambos os países através dos BRICS e bilateralmente. A posição brasileira de não participar das sanções contra a Rússia gerou críticas do Ocidente, mas manteve espaço para comércio de fertilizantes russos — vitais para o agronegócio brasileiro — e fortaleceu a relação com a China no contexto dos BRICS.

O Brasil importa mais de 20% de seus fertilizantes da Rússia, tornando essa relação estratégica para a segurança alimentar nacional. Ao mesmo tempo, a China é o maior parceiro comercial do Brasil. Navegar entre essas relações sem se alinhar automaticamente a nenhum bloco é um desafio diplomático permanente.

Lições para o Brasil

A parceria China-Rússia demonstra que alianças geopolíticas podem ser formadas rapidamente quando interesses convergem. O Brasil deve diversificar suas fontes de fertilizantes para reduzir a vulnerabilidade à instabilidade geopolítica, investindo na produção nacional e em parcerias com países como Canadá e Marrocos.

A posição de não-alinhamento do Brasil — mantendo relações com Ocidente, China e Rússia — é um ativo estratégico que deve ser preservado. No entanto, não-alinhamento não significa passividade: o Brasil deve usar sua posição para mediar conflitos, promover o diálogo e defender seus interesses concretos em fóruns multilaterais.

Perguntas Frequentes (FAQ)

O que é a parceria "sem limites" China-Rússia?

É a declaração conjunta de Xi Jinping e Putin em fevereiro de 2022, afirmando que a parceria bilateral não tem limites e que não há áreas "proibidas" de cooperação. Na prática, significa alinhamento estratégico em oposição à ordem liderada pelos EUA.

Quanto comerciam China e Rússia?

O comércio bilateral atingiu US$ 240 bilhões em 2023, mais que o dobro de cinco anos atrás. A China é o maior parceiro comercial da Rússia, comprando petróleo, gás e minerais e vendendo eletrônicos, automóveis e bens de consumo.

O Brasil depende de fertilizantes russos?

Sim, o Brasil importa mais de 20% de seus fertilizantes da Rússia, especialmente potássio e nitrogênio. Essa dependência ficou evidente após o início da guerra na Ucrânia, quando os preços dos fertilizantes dispararam globalmente.

A parceria China-Rússia é uma aliança militar?

Formalmente não é uma aliança de defesa mútua como a OTAN. No entanto, a cooperação militar é extensa, incluindo exercícios conjuntos, patrulhas coordenadas e transferência de tecnologia. Na prática, funciona como uma parceria militar estratégica.

Como a guerra na Ucrânia afetou a relação China-Rússia?

Aproximou os dois países significativamente. As sanções ocidentais empurraram a Rússia para a dependência econômica da China, enquanto a China se beneficia com petróleo e gás russos a preços descontados. No entanto, a China evita apoiar abertamente a guerra para não comprometer suas relações com a Europa.