O Cross-Border Interbank Payment System (CIPS), lançado em 2015, é a resposta chinesa à dependência do sistema SWIFT para pagamentos internacionais. Com mais de 1.400 instituições participantes em mais de 100 países e processamento diário superior a 500 bilhões de yuans, o CIPS representa o pilar infraestrutural da estratégia de internacionalização do yuan e da ambição chinesa por uma ordem financeira menos centrada no dólar.

Funcionamento e evolução do CIPS

O CIPS opera como câmara de compensação e liquidação para pagamentos internacionais denominados em yuan. Diferentemente do SWIFT, que é apenas um sistema de mensagens, o CIPS combina mensageria e liquidação em uma única plataforma, tornando-o potencialmente mais eficiente. A liquidação é em tempo real ou no mesmo dia.

Desde seu lançamento em 2015, o CIPS cresceu de 19 participantes diretos para mais de 80, com mais de 1.300 participantes indiretos em mais de 100 países. O volume diário cresceu de bilhões para mais de 500 bilhões de yuans. O sistema opera 24 horas e cobre fusos horários globais.

A escala do sistema financeiro chinês é impressionante: com US$ 58 trilhões em ativos bancários, a China possui o maior sistema bancário do mundo. Os quatro maiores bancos do planeta — ICBC, China Construction Bank, Agricultural Bank of China e Bank of China — são todos chineses. O volume de pagamentos digitais na China (US$ 42 trilhões anuais) é seis vezes superior ao dos Estados Unidos e treze vezes o do Brasil.

Implicações geopolíticas e desdolarização

As sanções ocidentais contra a Rússia em 2022, que incluíram a desconexão de bancos russos do SWIFT, aceleraram o interesse global no CIPS. A Rússia, Irã e outros países sob sanções utilizam o CIPS como alternativa. A China busca expandir o uso do yuan no comércio bilateral com parceiros como Brasil, Arábia Saudita e países da ASEAN.

A "desdolarização" é um processo gradual, não uma ruptura abrupta. O dólar ainda responde por mais de 80% das transações cambiais globais e 60% das reservas internacionais. O yuan representa cerca de 7% das transações globais de pagamento. No entanto, em comércio bilateral China-Rússia e China-Arábia Saudita, o yuan já supera o dólar.

A evolução histórica do sistema financeiro chinês é uma das grandes transformações do século XXI: em 1980, existia apenas um banco na China (o People's Bank of China fazia tudo). Hoje, o país possui mais de 4.000 instituições bancárias, um mercado de capitais que rivaliza com Wall Street e um ecossistema de pagamentos digitais que é referência mundial. Para o Brasil, essa trajetória demonstra que reformas estruturais — quando sustentadas por décadas — podem transformar radicalmente o sistema financeiro.

O cenário brasileiro

O Brasil é parceiro estratégico da China no comércio internacional, com fluxo bilateral superior a US$ 150 bilhões anuais. Em 2023, o Banco Central do Brasil e o PBOC estabeleceram acordo para liquidação direta em real-yuan, e um banco de compensação em yuan opera no Brasil (ICBC).

A possibilidade de liquidar parte do comércio bilateral em moedas locais poderia reduzir custos cambiais para exportadores brasileiros de soja, minério de ferro e petróleo. No entanto, a liquidez do yuan ainda é limitada comparada ao dólar, e a maioria das transações continua sendo denominada em dólares.

As implicações regulatórias dessa comparação são significativas: enquanto a China mantém controles de capital rigorosos e o Estado detém participação majoritária nos maiores bancos, o Brasil adotou um modelo mais liberal com bancos privados dominantes. Ambos os modelos apresentam vantagens e riscos distintos. A inadimplência bancária chinesa (1,6%) é oficialmente baixa, mas analistas internacionais estimam que a taxa real pode ser duas a três vezes maior quando se incluem empréstimos reestruturados e veículos de financiamento de governos locais.

Lições para o Brasil

O CIPS demonstra que alternativas ao SWIFT são viáveis tecnicamente, mas a adoção depende de fatores geopolíticos e econômicos além da tecnologia. Para o Brasil, a diversificação de sistemas de pagamento internacional é prudente — não para abandonar o dólar, mas para reduzir vulnerabilidade a decisões unilaterais.

O Brasil deveria explorar ativamente a liquidação em moedas locais com seus maiores parceiros comerciais (China, Argentina, países da ASEAN), enquanto mantém relação sólida com o sistema financeiro baseado no dólar. A neutralidade estratégica permite ao Brasil beneficiar-se de ambos os sistemas.

A escala do sistema financeiro chinês é impressionante: com US$ 58 trilhões em ativos bancários, a China possui o maior sistema bancário do mundo. Os quatro maiores bancos do planeta — ICBC, China Construction Bank, Agricultural Bank of China e Bank of China — são todos chineses. O volume de pagamentos digitais na China (US$ 42 trilhões anuais) é seis vezes superior ao dos Estados Unidos e treze vezes o do Brasil.

Dados e Estatísticas-Chave

IndicadorChinaBrasilMundo
Penetração bancária95%84%76%
Capitalização bolsa de valoresUS$ 12,4 triUS$ 950 biUS$ 115 tri
Pagamentos digitais (volume/ano)US$ 42 triUS$ 3,2 triUS$ 68 tri
CBDC (moeda digital do BC)e-CNY (piloto desde 2020)Drex (piloto desde 2023)134 países pesquisando
NPL (inadimplência bancária)1,6%3,2%3,6%

Análise do Especialista

A experiência do yuan digital (e-CNY) oferece lições cruciais para o Drex brasileiro. A China já realizou mais de 7 trilhões de yuans em transações com sua CBDC, testando em 26 cidades e em cenários que vão de pagamentos no varejo a transferências internacionais. Os desafios encontrados — privacidade, interoperabilidade, adoção pelo público — são os mesmos que o Banco Central do Brasil enfrentará. Estudar a experiência chinesa não é opção, é imperativo profissional.

Este tema — cips a alternativa chinesa ao swift e a nova ordem financeira — ilustra como a compreensão aprofundada do modelo chinês é indispensável para profissionais brasileiros de direito, finanças e relações internacionais que buscam navegar a crescente complexidade das relações sino-brasileiras no século XXI.

Perguntas Frequentes (FAQ)

O que é o CIPS?

O Cross-Border Interbank Payment System é o sistema chinês de pagamentos internacionais em yuan. Combina mensageria e liquidação em tempo real, com mais de 1.400 instituições participantes em mais de 100 países.

O CIPS substitui o SWIFT?

Não completamente. O SWIFT é mais abrangente (11.000+ instituições, múltiplas moedas). O CIPS é específico para yuan e menor em escala. São complementares para muitas instituições, mas o CIPS oferece alternativa para países sob sanções ocidentais.

O Brasil usa o CIPS?

Indiretamente. Bancos brasileiros acessam o CIPS através de bancos chineses participantes. Há acordo bilateral para liquidação real-yuan e um banco de compensação em yuan (ICBC) operando no Brasil.

A desdolarização é real?

É um processo gradual, não uma ruptura. O yuan cresceu de 2% para 7% das transações globais de pagamento em uma década. O dólar ainda domina com mais de 80% das transações cambiais, mas sua participação diminui lentamente.

O que aconteceria se o Brasil fosse desconectado do SWIFT?

Seria catastrófico para a economia brasileira no curto prazo. Por isso, diversificar sistemas de pagamento (incluindo acesso ao CIPS) é medida prudente de gestão de risco, mesmo que a probabilidade seja baixa.