A China viveu um boom sem precedentes de startups de semicondutores desde 2019, com mais de 60.000 empresas registradas no setor. Impulsionadas por centenas de bilhões de yuans em investimento — tanto governamental quanto de venture capital privado — essas startups cobrem todo o espectro da indústria: design de chips, EDA, equipamentos, materiais e encapsulamento. No entanto, o ecossistema também produziu desperdício e fraudes significativas.

O boom de startups de semicondutores

Entre 2019 e 2024, a China registrou dezenas de milhares de novas empresas de semicondutores, atraídas por subsídios governamentais, fundos de investimento dedicados e a narrativa de autossuficiência tecnológica. Cidades como Xangai, Shenzhen, Pequim, Hefei e Wuhan competem para atrair startups de chips, oferecendo terrenos, isenções fiscais e funding de seed capital.

Startups de destaque incluem a Biren Technology (GPUs para data centers), Horizon Robotics (chips para veículos autônomos), Moore Threads (GPUs domésticas) e Enflame Technology (aceleradores de IA). Muitas foram fundadas por engenheiros que deixaram gigantes como Intel, Qualcomm e AMD para empreender na China, levando expertise valiosa.

Desafios e fracassos do ecossistema

Nem tudo é sucesso. Dezenas de startups chinesas de chips faliram após receber investimentos vultosos. O caso mais notório foi o da Wuhan Hongxin Semiconductor (HSMC), que prometeu fábricas de 7 nm e 5 nm, recebeu bilhões em investimento governamental, e colapsou sem produzir um único chip. O CEO fugiu com fundos, expondo falhas nos mecanismos de due diligence.

O excesso de startups também levou a uma guerra de talentos brutal. Engenheiros de semicondutores chineses viram seus salários triplicar, mas muitos foram atraídos para empresas sem viabilidade técnica por ofertas salariais inflacionadas. A consolidação do setor é inevitável — analistas estimam que apenas 10-20% das startups de chips chinesas sobreviverão a longo prazo.

O cenário brasileiro

O ecossistema de startups de semicondutores no Brasil é praticamente inexistente. Enquanto a China registra dezenas de milhares de empresas no setor, o Brasil não possui nem uma dezena de startups focadas em design de chips. A falta de venture capital especializado em deep tech, a ausência de fabricantes locais e o desconhecimento do mercado sobre oportunidades em semicondutores explicam essa lacuna.

O talento existe: universidades brasileiras formam engenheiros eletrônicos competentes, e empresas como Qualcomm e AMD mantêm centros de design no Brasil. Porém, a barreira entre pesquisa acadêmica e empreendedorismo em semicondutores permanece intransponível para a maioria, sem programas de aceleração ou incubadoras dedicadas ao setor.

Lições para o Brasil

O boom chinês mostra que um ecossistema de startups de chips pode ser criado em poucos anos com os incentivos certos. Mas os fracassos também ensinam que governança, critérios técnicos e due diligence são essenciais para evitar desperdício de recursos públicos. O Brasil poderia criar um programa menor mas mais focado, com seleção rigorosa e acompanhamento técnico.

Incubadoras especializadas em semicondutores, conectadas a universidades com expertise em microeletrônica e a fabricantes internacionais para prototipagem, poderiam catalisar um ecossistema brasileiro de startups de chips. O investimento necessário seria modesto em comparação com os bilhões gastos pela China — R$ 500 milhões a R$ 1 bilhão em 5 anos poderia gerar resultados significativos.

Perguntas Frequentes (FAQ)

Quantas startups de chips a China tem?

A China registrou mais de 60.000 empresas de semicondutores desde 2019, embora muitas sejam pequenas ou não funcionais. Estima-se que alguns milhares sejam startups genuínas de design de chips, equipamentos ou materiais.

Quais startups chinesas de chips se destacam?

Biren Technology (GPUs), Horizon Robotics (chips automotivos), Moore Threads (GPUs domésticas), Enflame Technology (aceleradores de IA) e Cambricon (chips de IA) são algumas das startups chinesas de chips mais promissoras.

Houve fraudes em startups de chips na China?

Sim. O caso mais notório foi o da Wuhan Hongxin Semiconductor (HSMC), que recebeu bilhões em investimento para construir uma fab avançada e colapsou sem produzir nenhum chip. Dezenas de outras startups faliram após receber investimentos sem entregar resultados.

O Brasil tem startups de semicondutores?

Quase nenhuma. O Brasil tem empresas e centros de pesquisa que fazem design de chips em escala limitada, mas não possui um ecossistema de startups de semicondutores comparável ao de qualquer grande player global.

É possível criar uma startup de chips no Brasil?

É possível, especialmente no modelo fabless (design sem fabricação), mas enfrenta desafios: falta de venture capital especializado, ausência de fabricação local para prototipagem e poucos programas de incubação dedicados a semicondutores.