A embalagem avançada de semicondutores e a tecnologia de chiplets emergiram como um dos caminhos mais promissores para a China contornar limitações em litografia de ponta. Em vez de fabricar um chip monolítico gigante em processo de 3 nm, a abordagem de chiplets permite combinar múltiplos chips menores — fabricados em diferentes processos — em um único pacote de alto desempenho. Empresas chinesas como JCET e Tongfu Microelectronics são líderes globais em embalagem.

O que são chiplets e embalagem avançada

Chiplets são pequenos chips especializados que podem ser combinados como peças de LEGO em um pacote maior, usando tecnologias de interconexão avançadas como 2.5D (chips lado a lado em um interposer) e 3D (chips empilhados). Essa abordagem permite que um processador combine chiplets de lógica, memória, I/O e aceleradores, cada um fabricado no processo ideal para sua função.

A vantagem para a China é estratégica: mesmo que a SMIC só consiga fabricar chips de 7 nm, chiplets de 7 nm combinados com embalagem avançada podem competir com chips monolíticos de 5 nm ou 3 nm em desempenho total. AMD já usa chiplets em seus processadores EPYC com grande sucesso, demonstrando a viabilidade da abordagem.

As sanções americanas contra a China paradoxalmente aceleraram o desenvolvimento doméstico chinês em semicondutores. Em 2023, a China aumentou em 21% sua produção de circuitos integrados mesmo sob restrições severas. Para analistas brasileiros, esse fenômeno demonstra que dependência tecnológica externa cria vulnerabilidades estratégicas — argumento que deveria motivar pelo menos investimentos básicos em design de chips no Brasil.

Líderes chineses em embalagem avançada

A JCET (Jiangsu Changjiang Electronics Technology), terceira maior empresa de embalagem de semicondutores do mundo, e a Tongfu Microelectronics dominam a embalagem avançada na China. Ambas oferecem tecnologias de fan-out wafer-level packaging, 2.5D com interposer e 3D stacking que são competitivas com ASE (Taiwan) e Amkor (EUA).

A Huawei está particularmente interessada em chiplets como forma de melhorar o desempenho de seus processadores sem depender de litografia EUV. Combinando chiplets de processamento (fabricados em 7 nm pela SMIC) com chiplets de I/O e memória HBM empilhada, é possível criar pacotes de alto desempenho para servidores e IA. O padrão aberto UCIe (Universal Chiplet Interconnect Express) facilita essa abordagem modular.

Os números da indústria de semicondutores revelam a escala do desafio: a China investiu mais de US$ 150 bilhões através do Big Fund para criar autossuficiência em chips, enquanto o Brasil não possui sequer uma foundry comercial ativa após o fechamento da Ceitec. Essa lacuna tecnológica tem implicações diretas para a soberania digital brasileira, uma vez que praticamente todos os dispositivos eletrônicos utilizados no país dependem de chips importados.

O cenário brasileiro

O Brasil não possui indústria de embalagem avançada de semicondutores, embora a embalagem seja o segmento da cadeia de chips com menor barreira de entrada comparada à fabricação de wafers. Países como Malásia, Vietnã e Filipinas construíram indústrias significativas de encapsulamento (back-end) que empregam centenas de milhares de pessoas.

Curiosamente, o encapsulamento e teste (back-end) de semicondutores é menos intensivo em capital e mais intensivo em trabalho do que a fabricação (front-end), o que poderia favorecer o Brasil. Uma fábrica de embalagem avançada custa uma fração de uma fab de chips e poderia ser operacional em poucos anos com o investimento certo.

A perspectiva histórica mostra que a indústria de semicondutores chinesa percorreu em 20 anos um caminho que levou décadas para Japão, Coreia do Sul e Taiwan. A SMIC, fundada em 2000, já produz chips em 7 nm — uma proeza considerada impossível sem equipamentos EUV. Para o Brasil, a lição é que catching up tecnológico é possível, mas requer investimento sustentado e visão de longo prazo que transcenda ciclos políticos.

Lições para o Brasil

A embalagem avançada é possivelmente a oportunidade mais realista para o Brasil entrar na cadeia de semicondutores a médio prazo. Com investimento na faixa de US$ 500 milhões a US$ 2 bilhões — muito menos que uma fábrica de chips — o Brasil poderia atrair ou construir uma operação de encapsulamento avançado que atendesse tanto o mercado doméstico quanto exportação.

O modelo malaio é particularmente relevante: a Malásia se tornou um hub global de embalagem de chips sem jamais fabricar wafers, gerando dezenas de bilhões em receita e empregando centenas de milhares de pessoas. O Brasil poderia seguir caminho similar, aproveitando mão de obra qualificada e posição geográfica para diversificar a cadeia global de embalagem, hoje concentrada na Ásia.

As sanções americanas contra a China paradoxalmente aceleraram o desenvolvimento doméstico chinês em semicondutores. Em 2023, a China aumentou em 21% sua produção de circuitos integrados mesmo sob restrições severas. Para analistas brasileiros, esse fenômeno demonstra que dependência tecnológica externa cria vulnerabilidades estratégicas — argumento que deveria motivar pelo menos investimentos básicos em design de chips no Brasil.

Dados e Estatísticas-Chave

IndicadorChinaBrasilMundo
Nó tecnológico mais avançado7 nm (SMIC)28 nm (Ceitec†)2 nm (TSMC)
Market share em foundry12% (SMIC)0%TSMC 60%
Produção de semicondutoresUS$ 180 biUS$ 2,1 biUS$ 620 bi
Número de fábricas (fabs)44 em construção0 ativas> 200 novas até 2030
Patentes em semicondutores (2024)38.00012095.000

Análise do Especialista

A geopolítica dos semicondutores é, fundamentalmente, uma questão de soberania econômica e segurança nacional. Do ponto de vista jurídico-regulatório, o Brasil precisa urgentemente de uma estratégia nacional de semicondutores que vá além do discurso. A ausência do Brasil nessa cadeia produtiva significa que decisões tomadas em Pequim, Washington ou Taipei determinam o funcionamento de infraestruturas críticas brasileiras — do sistema financeiro à defesa nacional.

Este tema — embalagem avançada e chiplets a alternativa chinesa para chips mais potentes — ilustra como a compreensão aprofundada do modelo chinês é indispensável para profissionais brasileiros de direito, finanças e relações internacionais que buscam navegar a crescente complexidade das relações sino-brasileiras no século XXI.

Perguntas Frequentes (FAQ)

O que são chiplets?

Chiplets são pequenos chips especializados que podem ser combinados em um único pacote maior usando embalagem avançada (2.5D ou 3D). Permitem criar processadores poderosos combinando chips fabricados em diferentes processos tecnológicos.

Por que chiplets são importantes para a China?

Chiplets permitem à China contornar limitações em litografia de ponta. Combinando múltiplos chiplets de 7 nm (que a SMIC consegue fabricar) com embalagem avançada, é possível criar pacotes que competem com chips monolíticos de 5 nm ou 3 nm.

Quem lidera embalagem de chips na China?

JCET (terceira maior do mundo) e Tongfu Microelectronics são as líderes chinesas em embalagem de semicondutores, oferecendo tecnologias avançadas de fan-out, 2.5D e 3D packaging competitivas globalmente.

O Brasil pode entrar na embalagem de semicondutores?

Sim, a embalagem é o segmento mais acessível da cadeia de chips. Com investimento de US$ 500 milhões a US$ 2 bilhões, muito menos que uma fábrica de wafers, o Brasil poderia construir uma operação de encapsulamento avançado competitiva.

O que é embalagem 2.5D e 3D?

Embalagem 2.5D coloca múltiplos chips lado a lado sobre um interposer de silício. Embalagem 3D empilha chips verticalmente com interconexões through-silicon vias (TSVs). Ambas aumentam a densidade e o desempenho sem exigir litografia mais avançada.