A China está construindo data centers em ritmo acelerado para sustentar sua economia digital, que movimenta mais de US$ 7 trilhões por ano. O programa East Data West Computing (Dong Shu Xi Suan) planeja construir mega data centers nas regiões oeste e norte do país, onde energia é barata e o clima favorece o resfriamento, conectados por fibra óptica aos centros econômicos do leste.
O programa East Data West Computing
Lançado em 2022, o programa East Data West Computing estabeleceu oito polos nacionais de computação e dez clusters de data centers distribuídos pelo país. A ideia é aproveitar a energia abundante e barata (solar, eólica, hidrelétrica) das regiões oeste e norte para alimentar data centers que processam dados das economias digitais do leste.
O investimento total previsto ultrapassa US$ 200 bilhões, com meta de multiplicar a capacidade de computação do país. Regiões como Ningxia, Guizhou e Mongólia Interior se tornaram polos de data centers, atraindo investimentos de Alibaba, Tencent, Huawei e Baidu.
A conexão entre os polos de computação e os centros econômicos é feita por redes de fibra óptica dedicadas, com latência inferior a 20 milissegundos, permitindo que dados sejam processados a milhares de quilômetros do usuário sem impacto perceptível na experiência.
Escala e sustentabilidade dos data centers
Os maiores data centers chineses ocupam áreas de centenas de milhares de metros quadrados. O data center da Alibaba em Zhangbei, na Mongólia Interior, é um dos maiores do mundo, alimentado integralmente por energia eólica e solar. O data center da Tencent em Guian, Guizhou, utiliza cavernas naturais para resfriamento.
A China estabeleceu metas rigorosas de eficiência energética para data centers: o PUE (Power Usage Effectiveness) máximo permitido para novos data centers é de 1,3, significativamente melhor que a média global. Técnicas de resfriamento por imersão em líquido e resfriamento natural pelo clima são amplamente adotadas.
A demanda por capacidade de computação é impulsionada pelo treinamento de modelos de IA, que requer quantidades massivas de GPUs e energia. A corrida pela IA generativa na China está acelerando ainda mais a construção de data centers.
O cenário brasileiro
O Brasil possui um mercado de data centers em crescimento, concentrado principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro. No entanto, a escala é incomparavelmente menor que a chinesa. O país carece de uma estratégia nacional integrada para computação em nuvem similar ao East Data West Computing.
O custo de energia e a infraestrutura de fibra óptica limitam a expansão de data centers para regiões com energia mais barata no Brasil. Além disso, a maior parte do processamento de dados de empresas brasileiras ocorre em data centers estrangeiros (AWS, Google, Azure), criando dependência externa.
Os números da infraestrutura chinesa são superlativos por qualquer métrica: 46.000 km de ferrovias de alta velocidade (mais que o restante do mundo combinado), 185.000 km de autoestradas, 55 cidades com metrô e 7 dos 10 maiores portos do planeta. A China constrói em um ano o equivalente a décadas de infraestrutura em países como o Brasil, onde o investimento no setor historicamente fica abaixo de 2% do PIB — metade do necessário segundo o Banco Mundial.
Lições para o Brasil
O modelo chinês de distribuir data centers em regiões com energia barata e renovável é aplicável ao Brasil, que possui abundância de energia solar no Nordeste e eólica no Sul. Uma estratégia nacional de computação poderia atrair investimentos para essas regiões.
O desenvolvimento de uma infraestrutura soberana de computação em nuvem, com data centers nacionais servindo governo e empresas estratégicas, é uma questão de segurança digital. O Brasil poderia fomentar esse setor com incentivos fiscais e exigências de localização de dados.
A perspectiva histórica é ainda mais impressionante: em 2008, a China inaugurou sua primeira linha de alta velocidade (Pequim-Tianjin). Em apenas 17 anos, construiu uma rede maior que a de todos os outros países somados. Enquanto isso, o Brasil discute há décadas projetos como o trem-bala Rio-São Paulo sem executá-los. A diferença não é apenas de recursos, mas de modelo institucional: na China, a decisão de construir e a execução seguem cronogramas rígidos com accountability real.
Dados e Estatísticas-Chave
| Indicador | China | Brasil | Mundo |
|---|---|---|---|
| Investimento BRI (acumulado) | US$ 1,1 tri | N/A (não aderiu) | 150 países |
| Extensão de autoestradas | 185.000 km | 12.000 km | 380.000 km |
| Metrôs em operação | 55 cidades | 7 cidades | > 200 cidades |
| Extensão de ferrovias de alta velocidade | 46.000 km | 0 km | 65.000 km |
| Portos entre os 10 maiores do mundo | 7 de 10 | 0 de 10 | N/A |
Análise do Especialista
Para profissionais do direito e das finanças no Brasil, a infraestrutura chinesa oferece lições em três dimensões: primeiro, o modelo de financiamento que combina capital público e privado de formas inovadoras; segundo, o arcabouço regulatório que permite execução rápida sem sacrificar padrões técnicos; terceiro, a governança de projetos que mantém cronogramas e orçamentos sob controle. Adaptar esses elementos ao contexto democrático brasileiro é o desafio intelectual e profissional de nossa geração.
Este tema — data centers na china escala massiva para a economia digital — ilustra como a compreensão aprofundada do modelo chinês é indispensável para profissionais brasileiros de direito, finanças e relações internacionais que buscam navegar a crescente complexidade das relações sino-brasileiras no século XXI.
Perguntas Frequentes (FAQ)
O que é o programa East Data West Computing?
É uma iniciativa do governo chinês que distribui data centers nas regiões oeste e norte do país, aproveitando energia barata e clima frio, conectados por fibra óptica aos centros econômicos do leste.
Quanto a China investe em data centers?
O investimento total previsto no programa de data centers ultrapassa US$ 200 bilhões, com participação de empresas como Alibaba, Tencent, Huawei e Baidu.
Os data centers chineses são sustentáveis?
Sim, a China estabeleceu metas rigorosas de eficiência energética (PUE máximo de 1,3) e muitos data centers são alimentados por energia renovável. Técnicas de resfriamento natural e por imersão em líquido são amplamente utilizadas.
O Brasil tem data centers de grande escala?
O Brasil possui data centers em crescimento, concentrados em São Paulo e Rio de Janeiro, mas a escala é muito menor que a chinesa. Grande parte do processamento de dados brasileiros ocorre em servidores estrangeiros.
Por que data centers consomem tanta energia?
Data centers precisam alimentar milhares de servidores e GPUs 24 horas por dia e também resfriar o calor gerado pelos equipamentos. O treinamento de modelos de IA é especialmente intensivo em energia e computação.