O tokamak EAST (Experimental Advanced Superconducting Tokamak) da China, apelidado de "sol artificial", atingiu temperaturas de 120 milhões de graus Celsius por mais de 100 segundos — seis vezes mais quente que o centro do Sol. A China é uma das principais protagonistas na corrida pela fusão nuclear, a forma de energia que promete ser limpa, segura e praticamente ilimitada.

O programa de fusão nuclear chinês

A China investe bilhões em fusão nuclear através de dois caminhos paralelos: o tokamak EAST, que serve como plataforma de pesquisa para o projeto internacional ITER, e o desenvolvimento de um reator de fusão comercial próprio (CFETR - China Fusion Engineering Test Reactor), planejado para demonstrar viabilidade comercial até a década de 2040.

O EAST, localizado em Hefei (Anhui), já estabeleceu múltiplos recordes mundiais: manteve plasma a 120 milhões de graus por 101 segundos (2021) e a 70 milhões de graus por mais de 17 minutos (2022). Esses experimentos testam materiais, sistemas de confinamento magnético e controle de plasma essenciais para futuros reatores de fusão.

ITER e cooperação internacional

A China é um dos sete parceiros do ITER (International Thermonuclear Experimental Reactor), o maior projeto de fusão nuclear do mundo em construção na França. A China contribui com 9,09% do custo e está fabricando componentes críticos, incluindo magnetos supercondutores e sistemas de aquecimento de plasma.

Paralelamente ao ITER, a China desenvolve startups de fusão: a ENN Energy investiu em tokamaks compactos, e há projetos de fusão por confinamento inercial e fusão magnetizada. O governo considera a fusão nuclear uma "tecnologia disruptiva estratégica" no 14º Plano Quinquenal.

O cenário brasileiro

O Brasil tem participação limitada em pesquisa de fusão nuclear. O tokamak de Campinas (SP), operado pelo INPE, é um dos poucos experimentos de fusão na América Latina. No entanto, o Brasil recebeu do Japão o tokamak JT-60SA em partes, e pesquisadores brasileiros participam de colaborações internacionais.

A fusão nuclear é tipicamente uma área de pesquisa de países com recursos significativos para ciência básica. O investimento brasileiro em fusão é minúsculo comparado ao chinês, europeu ou americano.

Lições para o Brasil

Embora a fusão nuclear comercial esteja a décadas de distância, participar da pesquisa agora garante acesso à tecnologia no futuro. O Brasil deveria manter e expandir seus programas de fusão, formar pesquisadores na área e buscar parcerias com China, Europa e Japão.

Mesmo sem liderar a corrida da fusão, o Brasil pode contribuir em nichos específicos: materiais resistentes a plasma (nióbio, tungstênio), sistemas de controle e diagnóstico, e simulação computacional. A cooperação sino-brasileira em fusão seria mutuamente benéfica.

Perguntas Frequentes (FAQ)

O que é fusão nuclear?

Fusão nuclear é o processo que alimenta o Sol: átomos leves (hidrogênio) se fundem para formar átomos mais pesados (hélio), liberando enormes quantidades de energia. Se controlada na Terra, seria uma fonte de energia limpa, segura e praticamente ilimitada.

O tokamak EAST realmente funciona?

Sim, o EAST é um experimento funcional que já produziu plasma a 120 milhões de graus por mais de 100 segundos. No entanto, ele consome mais energia do que produz — o objetivo é demonstrar as condições necessárias para fusão, não gerar eletricidade comercialmente.

Quando a fusão nuclear será comercial?

A maioria dos especialistas estima que reatores de fusão comerciais podem surgir entre 2040 e 2060. O ITER deve demonstrar viabilidade científica até 2035, e reatores demonstradores como o CFETR chinês viriam na sequência.

A fusão nuclear é perigosa?

Não, diferente da fissão nuclear, a fusão é intrinsecamente segura: em caso de falha, a reação simplesmente para. Não há risco de fusão descontrolada, não produz resíduos radioativos de longa duração e não pode ser usada para armas nucleares.

O Brasil pesquisa fusão nuclear?

Sim, o Brasil possui um tokamak em Campinas (SP) operado pelo INPE, e pesquisadores brasileiros participam de colaborações internacionais em fusão. No entanto, o investimento é muito pequeno comparado a China, Europa ou EUA.