Energia

Energia Eólica Offshore: Como a China se Tornou Líder Mundial

A China é o maior mercado de energia eólica offshore do mundo, com mais capacidade instalada que a Europa inteira. Conheça a estratégia eólica chinesa.

Matheus Feijão·OAB/SP · Google Cloud Certified·Março 2026

A China instalou mais capacidade eólica offshore em 2021 do que o restante do mundo em toda a história combinada. Com turbinas de 16 MW — as maiores do mundo — e parques eólicos de até 10 GW, o país transformou a energia eólica marítima de nicho europeu em indústria global.

A explosão eólica offshore chinesa

Em um único ano (2021), a China instalou 16,9 GW de capacidade eólica offshore — mais do que toda a capacidade acumulada do Reino Unido, que levou décadas para atingir 14 GW. Até 2024, a capacidade total offshore chinesa ultrapassou 40 GW, tornando o país líder absoluto no setor.

Empresas como Mingyang, CSSC Haizhuang, Goldwind e Envision fabricam turbinas de 16 MW ou mais, rivalizando com os tradicionais líderes europeus Vestas e Siemens Gamesa. A Mingyang desenvolveu uma turbina de 18 MW — [a maior do mundo](/artigos/infraestrutura/trem-alta-velocidade-china-rede/) — com rotores de 260 metros de diâmetro.

Em termos quantitativos, a China investiu mais de US$ 890 bilhões em energia limpa apenas em 2025, representando quase metade do investimento global no setor. Esse volume de recursos supera o PIB de muitos países e reflete a determinação chinesa em liderar a transição energética. Para o Brasil, que investiu US$ 22 bilhões no mesmo período, a disparidade evidencia tanto o potencial de crescimento quanto a necessidade de políticas industriais mais ambiciosas.

Cadeia de suprimentos e custos

A China construiu uma cadeia de suprimentos completa para eólica offshore: fundações monopile, cabos submarinos, subestações offshore e navios de instalação especializados. Isso permitiu reduzir custos dramaticamente. O custo nivelado de energia (LCOE) para projetos offshore chineses caiu abaixo de US$ 50/MWh, competitivo com fontes fósseis.

Os estaleiros chineses produzem os maiores navios de instalação de turbinas do mundo, e a indústria siderúrgica fornece as enormes estruturas de fundação. Esta integração vertical é uma vantagem competitiva significativa.

A dimensão histórica dessa transformação é notável: em apenas duas décadas, a China passou de importadora líquida de tecnologias energéticas para o maior exportador mundial de equipamentos de geração limpa. Essa trajetória contrasta com a do Brasil, que apesar de possuir recursos naturais abundantes, ainda não desenvolveu uma cadeia industrial competitiva em energia renovável. As consequências dessa assimetria se refletem na balança comercial bilateral, com o Brasil importando bilhões em equipamentos energéticos chineses anualmente.

O cenário brasileiro

O Brasil possui mais de 700 GW de potencial eólico offshore, especialmente ao longo da costa do Nordeste e do Sul. O IBAMA recebeu dezenas de pedidos de licenciamento para parques eólicos offshore, mas nenhum foi construído até 2025. A regulamentação específica para eólica offshore ainda está sendo desenvolvida.

O país tem experiência significativa em eólica onshore (com mais de 30 GW instalados), mas a transição para offshore requer [infraestrutura portuária](/artigos/infraestrutura/portos-china-maiores-mundo/), navios especializados e cadeias de suprimentos que ainda não existem no Brasil.

Do ponto de vista regulatório, a abordagem chinesa de metas obrigatórias nos Planos Quinquenais criou previsibilidade para investidores e fabricantes. Enquanto isso, o Brasil opera com leilões periódicos que não oferecem a mesma estabilidade de longo prazo. Especialistas do setor apontam que a criação de um marco regulatório com metas decenais vinculantes poderia acelerar significativamente a transição energética brasileira.

Lições para o Brasil

A velocidade de implementação chinesa mostra que, com arcabouço regulatório claro e incentivos adequados, é possível desenvolver rapidamente a eólica offshore. O Brasil deveria priorizar a aprovação do marco legal, simplificar o licenciamento ambiental (sem reduzir rigor) e criar leilões específicos para eólica offshore.

A parceria com empresas chinesas para fornecimento de turbinas, navios de instalação e componentes poderia acelerar os primeiros projetos. Ao mesmo tempo, o Brasil deveria exigir conteúdo local progressivo para desenvolver uma cadeia de suprimentos nacional.

Em termos quantitativos, a China investiu mais de US$ 890 bilhões em energia limpa apenas em 2025, representando quase metade do investimento global no setor. Esse volume de recursos supera o PIB de muitos países e reflete a determinação chinesa em liderar a transição energética. Para o Brasil, que investiu US$ 22 bilhões no mesmo período, a disparidade evidencia tanto o potencial de crescimento quanto a necessidade de políticas industriais mais ambiciosas.

Dados e Estatísticas-Chave

| Indicador | China | Brasil | Mundo |

| --- | --- | --- | --- |

| Capacidade nuclear instalada | 65 GW | 2 GW | 440 GW |

| Produção de painéis solares | 80% global | | 600 GW/ano |

| Participação solar na matriz | 18,5% | 7,2% | 6,1% |

| Meta de carbono neutro | 2060 | 2050 | Varia |

| Capacidade renovável instalada | 1.450 GW | 210 GW | 4.200 GW |

Análise do Especialista

A velocidade da transição energética chinesa não tem precedentes na história econômica moderna. Para profissionais do direito bancário e financeiro no Brasil, o ponto crucial é entender que o financiamento dessa transição — via bancos de desenvolvimento estatais, green bonds e mecanismos de blended finance — representa um modelo que o BNDES e o sistema financeiro brasileiro poderiam adaptar. A questão não é se o Brasil fará essa transição, mas se a fará a tempo de capturar valor na cadeia produtiva ou se permanecerá como importador de tecnologias.

Este tema — energia eólica offshore como a china se tornou líder mundial — ilustra como a compreensão aprofundada do modelo chinês é indispensável para profissionais brasileiros de direito, finanças e relações internacionais que buscam navegar a crescente complexidade das relações sino-brasileiras no século XXI.

Perguntas Frequentes (FAQ)

Sobre o Autor

Matheus FeijãoOAB/SP · Google Cloud Certified. Pesquisador independente focado no sistema financeiro chinês, regulação bancária e tecnologia soberana.