Durante décadas, o setor imobiliário foi o motor da economia chinesa, representando até 30% do PIB quando incluídas as indústrias relacionadas. A crise que emergiu a partir de 2021, com a inadimplência da Evergrande e de outras incorporadoras, expôs as fragilidades de um modelo de crescimento excessivamente dependente da construção civil.

A ascensão do setor imobiliário

A privatização do mercado habitacional nos anos 1990 transformou o imóvel na principal forma de poupança e investimento das famílias chinesas. Com taxas de juros bancárias baixas e poucas alternativas de investimento, comprar apartamentos tornou-se a estratégia padrão de acumulação de riqueza. Os preços dos imóveis nas grandes cidades multiplicaram-se por dez ou mais entre 2000 e 2020.

Incorporadoras como Evergrande, Country Garden e Sunac expandiram agressivamente, usando alavancagem financeira para financiar novos projetos. O modelo dependia de vendas antecipadas de apartamentos na planta para financiar construções, criando um ciclo que funcionava enquanto os preços subiam continuamente.

A crise e a reestruturação

Em 2020, o governo chinês implementou a política das "três linhas vermelhas", limitando o endividamento das incorporadoras. A medida revelou a fragilidade financeira do setor. A Evergrande, com dívidas superiores a US$ 300 bilhões, declarou inadimplência em 2021, seguida por outras grandes empresas. Milhões de apartamentos ficaram inacabados e compradores protestaram em todo o país.

O governo chinês respondeu com medidas de estabilização: redução de taxas de juros hipotecários, relaxamento de restrições à compra, fundos de resgate para completar projetos inacabados e incentivos para que governos locais comprassem estoques de apartamentos vazios. A reestruturação do setor ainda está em curso e deve levar anos para se completar.

O cenário brasileiro

O Brasil viveu sua própria bolha imobiliária entre 2008 e 2014, quando os preços dos imóveis dobraram ou triplicaram nas grandes cidades, impulsionados pelo crédito fácil do Minha Casa Minha Vida e pela expansão da renda. A correção veio com a recessão de 2015-2016, quando preços caíram e a inadimplência subiu significativamente.

O setor imobiliário brasileiro é proporcionalmente menor que o chinês e as incorporadoras brasileiras são menos alavancadas. No entanto, o déficit habitacional brasileiro de mais de 6 milhões de moradias mostra que o problema no Brasil é mais de acesso do que de excesso de oferta, diferentemente da China onde há milhões de apartamentos vazios.

Lições para o Brasil

A crise imobiliária chinesa demonstra os riscos de uma economia excessivamente dependente de construção civil e especulação imobiliária. Políticas públicas devem equilibrar o estímulo ao setor com regulação prudencial que evite alavancagem excessiva e bolhas de preços.

Para o Brasil, a lição mais relevante é a importância de diversificar as fontes de crescimento econômico e não permitir que o setor imobiliário se torne uma aposta especulativa sistêmica. Políticas habitacionais devem focar em acessibilidade e moradia digna, não em valorização artificial de ativos.

Perguntas Frequentes (FAQ)

O que causou a crise imobiliária na China?

A crise resultou de décadas de expansão alavancada do setor, preços inflacionados e o modelo de vendas na planta. A política das "três linhas vermelhas" de 2020 restringiu o endividamento e expôs a fragilidade financeira de grandes incorporadoras como Evergrande.

O que aconteceu com a Evergrande?

A Evergrande, maior incorporadora da China, acumulou mais de US$ 300 bilhões em dívidas e declarou inadimplência em 2021. Milhões de apartamentos ficaram inacabados, afetando compradores que haviam pago antecipadamente.

A crise imobiliária chinesa afeta o Brasil?

Indiretamente sim. A construção civil chinesa é grande consumidora de minério de ferro e aço. A desaceleração do setor reduziu a demanda por commodities, afetando exportações brasileiras, especialmente da Vale.

Quantos apartamentos vazios existem na China?

Estimativas variam, mas estudos indicam que há dezenas de milhões de apartamentos vazios na China, suficientes para abrigar toda a população de um país como a França. Muitos foram comprados como investimento e nunca ocupados.

O governo chinês está resolvendo a crise?

O governo implementou medidas de estabilização como redução de juros hipotecários, relaxamento de restrições à compra e fundos para completar projetos inacabados. A reestruturação está em andamento, mas deve levar anos.