O yuan (renminbi — RMB) está se tornando uma moeda cada vez mais relevante no comércio e nas finanças internacionais. Incluído na cesta de Direitos Especiais de Saque do FMI em 2016, o yuan é hoje a quinta moeda mais utilizada em pagamentos globais e a mais negociada no comércio bilateral com dezenas de países, incluindo o Brasil.
A estratégia de internacionalização
A China adota uma abordagem gradual para internacionalizar o yuan, expandindo seu uso em comércio bilateral, criando linhas de swap cambial com mais de 40 bancos centrais, desenvolvendo o sistema de pagamentos CIPS (Cross-Border Interbank Payment System) como alternativa ao SWIFT e incentivando a emissão de títulos em yuan nos mercados internacionais (dim sum bonds).
O yuan já é a moeda mais usada em pagamentos transfronteiriços na China, superando o dólar em 2023. No comércio bilateral com Rússia, Arábia Saudita e diversos países asiáticos, o yuan é cada vez mais aceito. O Brasil e a China também firmaram acordos para liquidar comércio bilateral diretamente em reais e yuan, sem converter para dólares.
Desafios e limitações
Apesar dos avanços, o yuan ainda representa apenas cerca de 3-4% dos pagamentos globais, contra mais de 40% do dólar. O principal obstáculo é o controle de capital chinês: o yuan não é totalmente conversível, e os mercados financeiros chineses ainda não são tão abertos e profundos quanto os americanos.
A plena internacionalização do yuan exigiria que a China abrisse completamente sua conta de capital, permitindo livre fluxo de investimentos para dentro e para fora do país. Isso representaria riscos de instabilidade financeira que o governo chinês não está disposto a assumir no curto prazo. A internacionalização seguirá gradual.
O cenário brasileiro
O Brasil e a China assinaram acordos para comércio bilateral em moedas locais, e o ICBC (maior banco do mundo) opera no Brasil como banco de compensação em yuan. A China é o maior parceiro comercial do Brasil, com comércio bilateral superior a US$ 150 bilhões anuais, o que torna a possibilidade de comerciar em yuan relevante.
O uso do yuan no comércio Brasil-China poderia reduzir custos de transação e a exposição ao dólar. No entanto, a adoção ainda é incipiente, com a maior parte do comércio bilateral ainda denominada em dólares. A maturação dessa alternativa depende da profundidade do mercado financeiro em yuan no Brasil.
Lições para o Brasil
A ascensão do yuan ilustra a tendência global de diversificação monetária e redução da dependência do dólar. O Brasil, como grande parceiro comercial da China, pode se beneficiar dessa tendência ao aceitar e utilizar o yuan em transações comerciais, reduzindo custos de intermediação e exposição cambial.
Mais amplamente, a estratégia chinesa de internacionalizar o yuan mostra que a relevância de uma moeda depende do poder econômico, da estabilidade e da confiança. O Brasil poderia fortalecer o real como moeda regional na América do Sul, aumentando seu uso em transações com vizinhos e reduzindo a dependência do dólar em sua própria vizinhança.
Perguntas Frequentes (FAQ)
O yuan vai substituir o dólar?
Não no curto ou médio prazo. O yuan representa cerca de 3-4% dos pagamentos globais contra mais de 40% do dólar. A internacionalização é gradual e a China não pretende abrir completamente sua conta de capital. O cenário mais provável é um sistema multipolar com dólar, euro e yuan.
O Brasil pode comerciar com a China em yuan?
Sim, já existem acordos bilaterais para isso. O ICBC opera no Brasil como banco de compensação em yuan. Ainda é incipiente, mas o volume tende a crescer, reduzindo custos de transação e dependência do dólar.
O que é o CIPS?
É o Cross-Border Interbank Payment System, sistema de pagamentos internacionais chinês criado como alternativa ao SWIFT. Conecta mais de 1.300 instituições financeiras e processa transações em yuan, reduzindo a dependência da infraestrutura financeira ocidental.
O yuan é conversível livremente?
Não totalmente. A China mantém controles de capital que limitam o livre fluxo de investimentos. O yuan é conversível para transações comerciais, mas investimentos financeiros transfronteiriços ainda são regulados. A abertura é gradual.
O que são dim sum bonds?
São títulos de dívida denominados em yuan emitidos fora da China continental, principalmente em Hong Kong. São um instrumento de internacionalização do yuan, permitindo que investidores estrangeiros adquiram ativos em moeda chinesa.