As empresas chinesas transformaram-se em protagonistas da infraestrutura brasileira. Desde 2010, investimentos acumulados ultrapassam US$ 70 bilhões, com presença significativa nos setores de energia elétrica, petróleo, mineração, portos e telecomunicações. A State Grid e a China Three Gorges são hoje duas das maiores operadoras de infraestrutura no Brasil.

Energia elétrica: o setor com maior presença chinesa

O setor elétrico brasileiro é o principal destino dos investimentos chineses no país. A State Grid Corporation of China adquiriu participações relevantes em empresas de transmissão, controlando mais de 10.000 km de linhas de transmissão no Brasil, incluindo o linhão de Belo Monte — a maior linha de transmissão de ultra-alta tensão do hemisfério ocidental, com mais de 2.500 km.

A China Three Gorges (CTG) é outra gigante chinesa com presença massiva no Brasil. Após adquirir a concessionária de energia da Duke Energy e outros ativos, a CTG tornou-se uma das maiores geradoras privadas de energia no Brasil, com capacidade instalada superior a 8 GW em hidrelétricas, eólicas e solares.

Portos, mineração e novos setores

A China Merchants Port Holdings investe no Porto de Paranaguá e em outros terminais portuários brasileiros, facilitando o escoamento de commodities para a Ásia. A CMOC (China Molybdenum) opera a mina de nióbio e fosfato em Goiás, um dos maiores depósitos desses minerais no mundo.

Novos setores estão ganhando importância: a BYD constrói fábrica de veículos elétricos em Camaçari (BA), empresas chinesas investem em data centers e infraestrutura 5G, e o interesse chinês em minerais críticos como lítio e terras raras no Brasil tem crescido significativamente.

O cenário brasileiro

O déficit de infraestrutura no Brasil é estimado em mais de R$ 4 trilhões, tornando o investimento chinês bem-vindo do ponto de vista econômico. Os projetos chineses geralmente são executados com eficiência e dentro dos prazos, contrastando com o histórico de atrasos em obras públicas brasileiras.

No entanto, a concentração de infraestrutura crítica — como redes de transmissão elétrica e telecomunicações — em mãos de empresas estatais chinesas levanta preocupações legítimas sobre segurança nacional. O debate sobre screening de investimentos estrangeiros em setores estratégicos ganhou relevância no Congresso Nacional.

Lições para o Brasil

O Brasil deve aproveitar o interesse chinês em infraestrutura para negociar condições que maximizem benefícios locais: conteúdo nacional em equipamentos, contratação de mão de obra brasileira, transferência de tecnologia e programas de capacitação. A experiência da State Grid com transmissão de ultra-alta tensão, por exemplo, poderia ser transferida para engenheiros brasileiros.

É fundamental criar um marco regulatório claro para investimentos estrangeiros em setores estratégicos, com mecanismo de screening transparente e previsível. Isso não deve ser confundido com protecionismo: trata-se de garantir que investimentos em infraestrutura crítica atendam a padrões de segurança nacional sem desencorajar o capital produtivo.

Perguntas Frequentes (FAQ)

Quanto a China investiu em infraestrutura no Brasil?

Os investimentos chineses acumulados no Brasil ultrapassam US$ 70 bilhões desde 2007, concentrados em energia elétrica (transmissão e geração), petróleo, mineração, portos e telecomunicações.

A State Grid controla a rede elétrica brasileira?

A State Grid controla mais de 10.000 km de linhas de transmissão no Brasil, incluindo o linhão de Belo Monte. Embora significativa, essa participação representa uma fração do sistema de transmissão nacional total, que soma mais de 170.000 km.

Os investimentos chineses geram empregos no Brasil?

Sim, as empresas chinesas no Brasil empregam mais de 50.000 pessoas diretamente. A BYD promete gerar milhares de empregos em sua fábrica na Bahia. No entanto, em obras de construção, há casos de uso significativo de mão de obra chinesa importada.

Existe risco de segurança nos investimentos chineses?

Há preocupações legítimas sobre controle de infraestrutura crítica por empresas estatais chinesas, especialmente em energia e telecomunicações. Países como EUA, UE e Austrália possuem mecanismos de screening de investimentos estrangeiros que o Brasil ainda não desenvolveu plenamente.

O Brasil pode recusar investimentos chineses?

Sim, o Brasil possui autonomia para regular investimentos estrangeiros. No entanto, dado o déficit de infraestrutura e a escassez de capital, recusar investimentos sem alternativas viáveis seria contraproducente. A abordagem ideal é regular, não proibir.