A cooperação tecnológica entre Brasil e China é uma das mais longevas e bem-sucedidas entre países em desenvolvimento. O programa de satélites CBERS (China-Brazil Earth Resources Satellite), iniciado em 1988, é considerado um modelo de cooperação Sul-Sul em alta tecnologia. Além de satélites, a parceria se estende a agricultura, biotecnologia, energia e nanomateriais.
O programa CBERS: referência em cooperação espacial
O programa CBERS é a joia da cooperação tecnológica Brasil-China. Desde o acordo assinado em 1988, seis satélites já foram lançados conjuntamente: CBERS-1 (1999), CBERS-2 (2003), CBERS-2B (2007), CBERS-3 (2013, falhou no lançamento), CBERS-4 (2014) e CBERS-4A (2019). Esses satélites de sensoriamento remoto monitoram desmatamento, recursos hídricos, agricultura e uso do solo.
O CBERS é distribuído gratuitamente para países em desenvolvimento, sendo utilizado por mais de 40 nações. O programa transferiu tecnologia espacial significativa ao Brasil, fortalecendo o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e capacitando engenheiros brasileiros em sistemas ópticos, processamento de imagem e controle de satélites.
Cooperação em agricultura e biotecnologia
A Embrapa mantém acordos de cooperação com instituições chinesas de pesquisa agrícola, trocando conhecimentos sobre agricultura tropical, manejo de solo, melhoramento genético e controle biológico de pragas. A expertise brasileira em agricultura no Cerrado é particularmente valiosa para a China, que busca aumentar a produtividade em áreas semiáridas.
Na biotecnologia, laboratórios brasileiros e chineses colaboram em pesquisa genômica, biocombustíveis de segunda geração e desenvolvimento de fármacos derivados de biodiversidade. O potencial de cooperação é enorme: o Brasil possui a maior biodiversidade do mundo, enquanto a China tem capacidade industrial para transformar descobertas em produtos comerciais.
O cenário brasileiro
A cooperação tecnológica com a China tem produzido resultados concretos, mas o potencial é muito maior do que o atualmente explorado. O investimento brasileiro em P&D é de apenas 1,2% do PIB, contra 2,4% da China. Essa disparidade limita a capacidade brasileira de participar como parceiro equitativo em projetos de alta tecnologia.
A presença de centros de P&D de empresas chinesas no Brasil — como os da Huawei em São Paulo e Campinas — oferece oportunidades de formação de capital humano e colaboração com universidades brasileiras. No entanto, a absorção efetiva de tecnologia requer investimento público sustentado em educação e pesquisa.
Lições para o Brasil
O sucesso do CBERS demonstra que cooperação tecnológica de alto nível entre países em desenvolvimento é possível quando há compromisso político de longo prazo, financiamento sustentado e benefício mútuo claro. O Brasil deveria expandir esse modelo para outras áreas: inteligência artificial aplicada ao agronegócio, tecnologia de baterias, materiais avançados e saúde digital.
A negociação de transferência de tecnologia deve ser uma condição explícita em todos os grandes investimentos chineses no Brasil. Cada contrato de infraestrutura, cada fábrica instalada e cada acordo de comércio deveria incluir componentes de capacitação tecnológica, formação profissional e desenvolvimento de fornecedores locais.
Perguntas Frequentes (FAQ)
O que é o programa CBERS?
O CBERS (China-Brazil Earth Resources Satellite) é um programa conjunto de satélites de sensoriamento remoto entre Brasil e China, iniciado em 1988. Já lançou seis satélites que monitoram recursos naturais, desmatamento e uso do solo, sendo distribuídos gratuitamente a mais de 40 países.
A Embrapa coopera com a China?
Sim, a Embrapa mantém acordos com instituições chinesas de pesquisa agrícola em áreas como agricultura tropical, melhoramento genético, manejo de solo e controle biológico de pragas. A expertise brasileira em agricultura no Cerrado é particularmente valorizada.
A Huawei faz pesquisa no Brasil?
Sim, a Huawei opera centros de P&D em São Paulo e Campinas, investindo em pesquisa em telecomunicações, inteligência artificial e semicondutores. Esses centros empregam engenheiros brasileiros e colaboram com universidades locais.
O Brasil investe quanto em P&D?
O investimento brasileiro em P&D é de aproximadamente 1,2% do PIB, muito abaixo dos 2,4% da China, 3,5% da Coreia do Sul e 3,1% dos Estados Unidos. Essa disparidade limita a capacidade de inovação e a competitividade tecnológica brasileira.
A cooperação tecnológica beneficia ambos os países?
Sim, quando bem estruturada. O Brasil oferece biodiversidade, expertise em agricultura tropical e capital humano qualificado. A China oferece capacidade industrial, escala e investimento em P&D. A complementaridade é real, mas requer negociação equilibrada para que ambos se beneficiem.