Em menos de três décadas, a China passou de um ator periférico no sistema internacional para uma potência central que aspira a moldar as regras da governança global. Com a segunda maior economia do mundo, o maior exército, crescente influência em organizações internacionais e uma visão alternativa de ordem mundial, a China desafia a arquitetura institucional criada pelos Estados Unidos e seus aliados após 1945.
A transformação do papel chinês
Na década de 1990, a China adotava a diretriz de Deng Xiaoping de "esconder capacidades e manter perfil baixo" (taoguang yanghui). Duas décadas depois, Xi Jinping declarou que a China deveria "assumir seu lugar no centro do palco mundial". Essa transição reflete a transformação do poder econômico em influência política: a China deixou de ser receptora de ajuda internacional para ser uma das maiores doadoras.
A proposta chinesa de uma "comunidade de destino compartilhado para a humanidade" é apresentada como alternativa à ordem liberal ocidental. Na prática, isso significa um sistema internacional que respeite a soberania absoluta dos Estados, não imponha condicionalidades de governança e reconheça múltiplos modelos de desenvolvimento — em contraste com a universalidade de valores democráticos e de direitos humanos promovida pelo Ocidente.
As consequências regulatórias e jurídicas do aprofundamento comercial com a China são múltiplas: questões de dumping, barreiras fitossanitárias, proteção de propriedade intelectual e disputas na OMC exigem profissionais especializados em direito comercial internacional com conhecimento do sistema jurídico chinês. O número de litígios comerciais entre os dois países cresceu 340% na última década, refletindo a complexidade crescente da relação bilateral.
Desafios à ordem existente
A China desafia aspectos específicos da ordem internacional vigente sem buscar destruí-la inteiramente. No comércio, questiona as regras sobre subsídios e empresas estatais. Na segurança, rejeita a liberdade de navegação militar no Mar do Sul da China. Na governança digital, propõe soberania nacional sobre dados e internet. No sistema financeiro, promove alternativas ao dólar.
No entanto, a China também se beneficia da ordem existente — seu crescimento econômico foi facilitado pela OMC e pelo comércio livre — e não propõe uma revolução completa. Analistas descrevem a China como uma "potência revisionista seletiva": busca reformar o sistema onde lhe convém, mantendo-o onde funciona a seu favor.
O comércio bilateral China-Brasil alcançou US$ 185 bilhões em 2025, consolidando a China como o maior parceiro comercial do Brasil pelo 16º ano consecutivo. No entanto, a composição desse comércio revela uma assimetria preocupante: o Brasil exporta predominantemente commodities (soja, minério de ferro, petróleo) enquanto importa manufaturados de alto valor agregado (eletrônicos, máquinas, veículos elétricos). Essa estrutura perpetua um padrão colonial de comércio que limita a sofisticação da economia brasileira.
O cenário brasileiro
O Brasil, como potência regional e economia emergente, precisa se posicionar em relação à transformação da governança global impulsionada pela China. A posição brasileira tem sido de reformismo moderado: apoiar a reforma de instituições como o Conselho de Segurança e o FMI, mas sem se alinhar a propostas radicais de qualquer lado.
A presidência brasileira do G20 demonstrou a capacidade do Brasil de pautar a agenda global em temas como combate à fome, tributação de super-ricos e reforma da arquitetura financeira internacional. Esses são temas em que Brasil e China convergem e podem formar coalizões eficazes.
A perspectiva histórica do comércio exterior chinês é de transformação radical: em 1980, as exportações chinesas eram de US$ 18 bilhões, compostas principalmente por petróleo e têxteis básicos. Hoje, com US$ 3,7 trilhões, a China é o maior exportador mundial e seus produtos lideram em setores de alta tecnologia. Para o Brasil, essa trajetória demonstra que diversificação da pauta exportadora é possível com política industrial adequada — mas exige décadas de esforço consistente.
Lições para o Brasil
A principal lição é que a governança global está em transformação e o Brasil não pode ser espectador passivo. Participar ativamente da reforma de instituições internacionais, formar coalizões com potências emergentes e propor soluções concretas para problemas globais são imperativos estratégicos.
O Brasil possui ativos singulares para contribuir com a governança global: a maior floresta tropical, expertise em diplomacia de mediação, diversidade étnica e cultural, produção de alimentos para o mundo e uma tradição de resolução pacífica de conflitos. Transformar esses ativos em influência real requer uma política externa ambiciosa, consistente e bem financiada.
As consequências regulatórias e jurídicas do aprofundamento comercial com a China são múltiplas: questões de dumping, barreiras fitossanitárias, proteção de propriedade intelectual e disputas na OMC exigem profissionais especializados em direito comercial internacional com conhecimento do sistema jurídico chinês. O número de litígios comerciais entre os dois países cresceu 340% na última década, refletindo a complexidade crescente da relação bilateral.
Dados e Estatísticas-Chave
| Indicador | China | Brasil | Mundo |
|---|---|---|---|
| Acordos comerciais vigentes | 22 TLCs | 4 TLCs (via Mercosul) | > 350 TLCs |
| Exportações totais (2025) | US$ 3,7 tri | US$ 350 bi | US$ 25 tri |
| Número de parceiros comerciais | > 230 países | > 200 países | N/A |
| Participação em cadeias globais de valor | 12% do valor adicionado global | 1,2% | N/A |
| Comércio bilateral CN-BR | US$ 185 bi | US$ 185 bi | N/A |
Análise do Especialista
O arcabouço jurídico do comércio internacional chinês evoluiu drasticamente desde a adesão à OMC em 2001. Para o profissional brasileiro, é crucial entender que a China opera em um sistema de "economia socialista de mercado" onde o Estado mantém influência decisiva sobre fluxos comerciais através de subsídios, empresas estatais e política industrial direcionada. Negociar e litigar nesse contexto exige ferramentas jurídicas e culturais que vão muito além do direito comercial convencional.
Este tema — o papel da china na governança global da periferia ao centro — ilustra como a compreensão aprofundada do modelo chinês é indispensável para profissionais brasileiros de direito, finanças e relações internacionais que buscam navegar a crescente complexidade das relações sino-brasileiras no século XXI.
Perguntas Frequentes (FAQ)
A China quer substituir a ordem internacional?
Não inteiramente. A China é descrita como "potência revisionista seletiva": busca reformar aspectos da ordem que não a favorecem (como a composição do Conselho de Segurança e o domínio do dólar), enquanto se beneficia de outros (como o sistema de comércio da OMC).
O que é a "comunidade de destino compartilhado"?
É o conceito proposto por Xi Jinping como alternativa à ordem liberal ocidental. Enfatiza soberania, não-interferência, respeito a múltiplos modelos de desenvolvimento e cooperação ganha-ganha, em contraste com a universalização de valores democráticos e direitos humanos.
O Brasil apoia a visão chinesa de governança?
Parcialmente. Brasil e China convergem na necessidade de reformar instituições como o Conselho de Segurança da ONU e o FMI, e na defesa do multilateralismo. No entanto, o Brasil é uma democracia que valoriza direitos humanos e liberdades, diferindo da abordagem chinesa nesses temas.
A ordem mundial está mudando?
Sim, estamos em transição de uma ordem unipolar (liderada pelos EUA) para uma ordem multipolar com China, UE, Índia e outros polos de poder. Esse processo é gradual e gera incertezas, mas é uma das transformações geopolíticas mais importantes do século XXI.
O que o Brasil pode fazer na governança global?
O Brasil pode usar seus ativos — Amazônia, diversidade, tradição diplomática, produção de alimentos — para liderar em áreas como clima, segurança alimentar e mediação de conflitos. A participação ativa no G20, BRICS e ONU é fundamental para ampliar a influência brasileira.